Guénon e o falso Simbolismo da CruzO Ar como Espaço Teológico e Metafísico: Cruz, Vento e Potestades

A tradição católica, especialmente à luz da teologia tomista e da experiência mística de santos como Santa Francisca Romana e São João da Cruz, oferece uma chave privilegiada para interpretar a dimensão simbólica do ar, ou mais propriamente, da metafísica pneumática. Enquanto certos ocultistas e gnósticos, como Miguel Serrano, empregam a simbólica do vento para justificar mitologias hiperbóreas e avatares anti crísticos, a teologia cristã autenticamente enxerga no vento (em hebraico ruah, em grego pneuma, em latim spiritus) o símbolo ambíguo do espírito: tanto o Santo Espírito (Spiritus Sanctus), como os espíritos errantes e as potestades do ar, dominadas por Satanás (princeps potestatis aeris, cf. Ef 2,2).

O ar, como domínio intermediário entre a terra (mundo sensível) e o céu (mundo espiritual superior), torna-se o palco de uma batalha angelológica e escatológica. É neste espaço que os anjos executam missões divinas e onde os demônios, sobretudo as “potestades do ar”, operam suas tentações e ilusões.

Em sua obra Trattato dell’Inferno, Santa Francisca Romana descreve com pormenores visionários a atividade dos anjos decaídos no espaço aéreo. Ela via claramente os demônios pairando sobre as cidades, agindo como inteligências desencarnadas, fomentando desordens espirituais, sociais e morais (“Vidi spiritus malignos per aerem volitare, causas discordiae et peccati hominibus suggerentes.” – “Vi os espíritos malignos voarem pelo ar, sugerindo aos homens causas de discórdia e de pecado.”).

Essa descrição coincide com a doutrina paulina (“In quibus aliquando ambulastis secundum saeculum mundi huius, secundum principem potestatis aeris, spiritus qui nunc operatur in filiis diffidentiae.” – Ef 2,2  “Nos quais outrora andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência.”).

A dimensão aérea é simultaneamente zona de comunicação, campo de batalha e via de trânsito espiritual entre os sopros do Espírito Santo e os sussurros venenosos do inimigo.

Santo Tomás  nota que os anjos decaídos, embora destituídos da visão beatífica, não perderam seu poder natural, inclusive sobre os corpos e os elementos (“Daemon habet potestatem super corpora in virtute naturali sibi relicta.” – “O demônio tem poder sobre os corpos segundo a virtude natural que lhe foi deixada.” ST, I, q.64, a.4). Tal poder se manifesta, sobretudo, no domínio do ar, pela sutileza de sua substância e pela analogia com a natureza angélica.

São João da Cruz, doutor místico da Igreja, compreende a ação do Espírito Santo como um vento impetuoso, símbolo de purificação e elevação da alma. Em seu Cântico Espiritual, ele escreve: “Soprando o vento do teu voo, / com sua suavidade me tocou”. Esse sopro (spiritus) é contraposto ao vento ilusório das paixões, fomentadas pelas potestades aéreas. São João da Cruz, cuja própria identidade espiritual está profundamente ligada ao símbolo da Cruz, compreende que a alma só alcança o cume do monte (Deus) ao atravessar as purificações dos sentidos e do espírito, que ocorrem nessa travessia do “ar” simbólico, domínio do sofrimento, da confusão e da provação.

Em direta oposição à visão cristã, Miguel Serrano propõe, em chave gnóstica e ariana, que “a verdadeira Hiperbórea” se encontra “mais além do Demiurgo” (Hiper-Bóreas, além do deus do vento do Norte), numa transcendência ilusória que nega a criação ex nihilo e, como gnóstico, vê Deus como um Demiurgo e um tirano. Afirmam que o “sopro” demiúrgico é um engano, um véu pneumático entre o homem e a verdadeira divindade suprema. Na simbologia antiga, os quatro ventos eram personificados como deuses e associados aos pontos cardeais. Bóreas, o vento do Norte, era representado como severo, gélido e masculino. Os outros ventos – Noto (Sul), Eurus (Leste) e Zéfiro (Oeste) – também formavam uma quadra simbólica, que foi reinterpretada no imaginário bíblico e patrístico como os quatro cantos da Terra (cf. Ap 7,1), de onde os anjos seguram os ventos antes da consumação dos tempos. Assim, o “mundo do ar” passa a ser visto como prisão ilusória. Em seu livro Adolf Hitler, o Último Avatar, Serrano escreve:

“O Demiurgo, na verdade, é um respirar, uma pneuma, um pleroma. Hiperbórea significa mais além do Demiurgo, mais além da sua Respiração.”

Ele associa o símbolo da suástica ao giro das constelações setentrionais (septem triones, as sete estrelas da Ursa Maior), que giram em torno da Estrela Polar, que dá forma à suástica – eixo do mundo (axis mundi) para muitas cosmologias pagãs. Essa suástica, adotada por Guénon como símbolo da “tradição primordial”, representa um movimento centrífugo ou centrípeto, dependendo de sua rotação. Mas na tradição cristã, a Cruz de Cristo é o verdadeiro Axis Mundi. E, como escreve São Leão Magno, a Cruz de Cristo é a escada do céu.

A suástica, como símbolo solar rotativo, é a perversão gnóstica da cruz, que em sua verticalidade e horizontalidade une céu e terra, e revela não o giro eterno dos ciclos, mas a história da salvação: um evento único, com sentido, centro e finalidade – a Redenção. A suástica é símbolo da roda do tempo, da ilusão cíclica, do eterno retorno nietzscheano onde tudo se desfaz. Por isso é apropriado a tradições gnósticas e orientais que negam a Encarnação definitiva. Guénon e os “gnósticos polares” reinterpretam o Norte como o “centro espiritual original” da humanidade, mas rejeitando o Cristo encarnado como centro da história. A Cruz deixa de ser símbolo da Redenção e torna-se um motor cósmico impessoal. Daí deriva sua influência sobre os “Polares” Serrano, Dugin e outros ideólogos de uma espiritualidade do sangue, do gelo e da vontade.

Na linguagem semiótico-teológica, o ar representa o espaço intermediário da comunicação simbólica. É o domínio dos sinais, dos espíritos, dos odores (sacrificium odoris suavissimi), das vozes e clamores. E é precisamente neste espaço que o cristão precisa discernir se o vento que sopra é o da carne, do mundo e do diabo – ou o vento novo de Pentecostes.

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