A Igreja sempre ensinou que um verdadeiro símbolo é ponte entre o visível e o invisível — um rumor divino que emerge da criação e nos aproxima do próprio Deus. Não é obra da nossa fantasia nem invenção cultural passageira, mas sinal participativo de algo que nos transcende. Esse gesto sagrado une, orienta e congrega. Em contrapartida, o diábolo (do grego dia-bállō, “aquele que espalha em direções opostas”) funciona como força contrária: dispersa, fragmenta e embaraça. Compreender essa tensão entre símbolo e diábolo é fundamental para ler os sinais do nosso tempo e enfrentar a grave crise espiritual que nos assola.
A Cruz: centro e reconciliação
A Cruz não é mero objeto de martírio, tampouco um mero ornamento religioso. Ela é o eixo do cosmos restaurado, a interseção do vertical (Deus) e do horizontal (homem), do céu e da terra, do eterno e do histórico. Não se limita a representar algo: ela realiza a reconciliação entre o Criador e a criatura. Quem se aproxima da Cruz não encontra abstrações, mas uma presença viva — a carne de Cristo, o sopro do Espírito, a promessa de redenção.
Reduzir a Cruz a mais um “arquétipo” comparável a outras imagens espirituais (sejam mandalas, rodas solares ou runas) é incorrer em uma gnose vazia, que troca o Mistério pela estética do poder. Sem o sacrifício real do Cordeiro, qualquer símbolo se torna fetiche.
A Suástica Guenoniana: giro sem redenção
Em O Simbolismo da Cruz, René Guénon resgata a suástica como imagem do “centro primordial” girando em torno do Eixo do Mundo. Para ele e para discípulos como Evola e Dugin, essa cruz em movimento remeteria a uma ordem anterior ao cristianismo. Mas, sem a Encarnação, esse “eixo” não salva: ele gira em vão.
A suástica guenoniana oferece um poder cósmico sem sangue, uma “rotação” impessoal, alheia ao mistério da encarnação. É uma abstração demente: gira eternamente sobre si, mas não reconcilia céus e terras nem sustenta a carne redimida. O simbolismo esotérico, despojado do Verbo, converte-se em redemoinho gnóstico.
A Estrela do Caos: o anti-símbolo multipolar
Se a suástica tenta manter um centro ilusório, a estrela do caos o destrói por completo. Com seu ponto central e oito setas divergentes, ela não reúne, mas dilacera; não liberta, mas entropiza. É o “anti-símbolo” por excelência: um produto do diábolo — simula ordem, mas nega sentido; aparenta centralidade, mas elege a fragmentação.
Adotada por ocultistas, satanistas “modernos” e grupos de “caos mágico”, essa figura seduz com promessas de liberdade absoluta. Contudo, sem um fio que conduza ao Logos, ela conduz ao abismo da desintegração espiritual. A estrela do caos é a verdadeira face do Anticristo: não impõe com tirania, mas fascina até a perdição.
Dionísio, o anti-Crístico: embriaguez e dissolução
Dionísio, com seu cortejo de êxtases possuídos, sacrifícios violentos e dissolução de identidades, simboliza o anti-Logos no mundo antigo. Essencial para Nietzsche, Crowley, Dugin e para toda vertente do niilismo pop, ele proclama um “logos” de pura desordem. Mas seu “culto” não esclarece: intoxica. Sua “revelação” não ilumina: fragmenta.
Esse arquétipo dionisíaco pavimenta a base da “magia do caos” contemporânea. Enquanto o Logos cristão une carne e Espírito, Dionísio dispersa, promove a anomia e celebra a perda do centro.
Gnose e inversão simbólica
A gnose, em suas variadas roupagens, repete esse gesto invertido: promete salvação não pela Cruz, mas por um conhecimento secreto. Contra o símbolo participativo, ergue-se o simulacro esotérico. Onde a Cruz chama à entrega, a gnose exige autonomia; onde o Verbo faz carne, ela busca emanação impessoal.
Tais falsos símbolos — suástica guenoniana, estrela do caos, mandalas híbridas, tronos dionisíacos — partilham um mesmo projeto: recusar Cristo para instaurar o Anticristo. Não combatem brutalmente a fé, mas a simulam. Mimética e insidiosa, sua linguagem seduz antes de destruir.
A Cruz ou o abismo
A semiótica cristã é uma vigília. Quando símbolos invertidos proliferam, quando se erguem falaciosas sínteses entre tradição e revolução, resta-nos fixar o olhar no sinal verdadeiro: a Cruz. Ela não apenas resiste ao caos, mas o vence pela Graça.
Contra a magia do caos, a Cruz permanece.
Contra a rotação vazia, o Verbo fixado no madeiro.
Contra Dionísio, o Corpo glorioso do Cordeiro.
Contra a gnose, o Sangue Redentor.
Contra o espelho do ego, o ícone do Crucificado.
A grande disputa do nosso tempo é, além de tudo, simbólica: entre o ícone e o simulacro; entre o Logos que salva e o diábolo que destrói; entre a Cruz e a estrela de mil caminhos. Escolher é confiar na cruzada da Cruz.
