Uma Análise Histórica e Ideológica da FSSPX e Suas Conexões Perigosas

Uma crítica recebida em resposta à minha postagem anterior, embora veemente, carece de substância analítica e recorre a ataques pessoais em vez de enfrentar os argumentos apresentados com base em fatos históricos e ideológicos. Acusações de “má fé” e “desonestidade” não refutam as evidências documentadas sobre as tensões entre o tradicionalismo católico da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), as influências perenialistas e as tendências rebeldes que ameaçam a unidade da Igreja. Este texto visa esclarecer essas questões, refutar a crítica e demonstrar que as preocupações levantadas não são invenções, mas sim reflexões fundamentadas em fontes históricas e doutrinárias.

A crítica sugere que a FSSPX não questiona o “Trono de Pedro” e que minhas afirmações são “difamações” desmentidas por informações disponíveis no site da fraternidade e na biografia de Dom Marcel Lefebvre. No entanto, essa resposta ignora o cerne do argumento: não se trata de afirmar que a FSSPX rejeita formalmente a instituição papal, mas de apontar como suas ações práticas, as influências ideológicas em seu entorno e as conexões históricas de seus líderes desafiam, na prática, a autoridade papal e abrem brechas para cisões mais graves. A análise aqui apresentada não é um ataque pessoal, mas uma crítica fundamentada às correntes que orbitam a FSSPX e aos riscos que elas representam para a ortodoxia católica.

O perenialismo, defendido por pensadores como René Guénon, Frithjof Schuon e Ananda Coomaraswamy, propõe uma “tradição primordial” universal subjacente a todas as religiões. Essa visão, embora intelectualmente atraente para alguns, relativiza a singularidade da Revelação cristã, equiparando-a a tradições como o hinduísmo e o islamismo. A Igreja Católica, por outro lado, afirma a unicidade salvífica de Cristo (cf. Dominus Iesus, 2000) e a plenitude da verdade em sua doutrina, rejeitando qualquer sincretismo religioso.

Coomaraswamy, embora não católico (estava sob a influência de sheik muçulmano), lecionou em seminários da FSSPX, atraído por uma nostalgia compartilhada pela tradição pré-moderna. Sua visão perenialista, porém, carrega inclinações gnósticas – a busca por um “conhecimento secreto” além da ortodoxia – , o que é incompatível com a suficiência da fé e dos sacramentos católicos. A presença de suas ideias no entorno da FSSPX, mesmo que não oficialmente adotadas, cria uma tensão ideológica que pode corroer a identidade católica da fraternidade.

Além disso, Coomaraswamy estava ligado à Maryamiyya, uma seita pseudo-sufi fundada por Schuon, discípulo de Guénon. Schuon, iniciado na Ordem Sufi Shadhili, via o Ocidente moderno como “luciferiano” e defendia uma ordem hierárquica universal, expressa em obras como Castas e Raças (1953). Essa visão apocalíptica e elitista, que rejeita a modernidade em nome de uma “tradição primordial”, contrasta com a missão universal da Igreja e representa um risco ao atrair indivíduos desiludidos com o secularismo para uma espiritualidade híbrida e heterodoxa.

Dom Marcel Lefebvre, fundador da FSSPX, é uma figura central nesse debate. A crítica afirma que ele não questionou a legitimidade dos papas, mas isso é uma simplificação. Embora Lefebvre não tenha adotado o sedevacantismo – a crença de que a Sé Romana está vaga desde o Vaticano II – , suas ações práticas desafiaram diretamente a autoridade papal. Em 1988, ele ordenou quatro bispos sem mandato pontifício, violando o Cânon 1382 do Código de Direito Canônico. A Santa Sé considerou isso um ato cismático, resultando em sua excomunhão e na dos bispos ordenados (Ecclesia Dei, 1988). Várias instituições acompanham essa forma dúbia de não ser sedevacantista sendo, como o Centro Dom Bosco, Montfort e Flos Carmeli (do Orlando Fedeli) donde saem críticas contundentes ao papado e ao Vaticano II.

Lefebvre justificou suas ações como um “estado de necessidade” para preservar a tradição católica contra os “erros modernistas” do Vaticano II. Contudo, ao criar uma estrutura eclesiástica paralela, ele assumiu uma autoridade reservada exclusivamente ao Papa, minando na prática a primazia papal. A ambiguidade entre “resistência” e rebeldia é evidente: a FSSPX reconhece teoricamente o Papa, mas rejeita suas diretrizes pós-conciliares, alegando uma “crise na Igreja”. Essa postura atrai simpatizantes do sedevacantismo e alimenta subgrupos marginais que rompem totalmente com Roma.

O uso de vestes brancas por Lefebvre, embora não uma reivindicação explícita ao papado, pode ser interpretado como uma provocação simbólica, evocando a autoridade suprema tradicional em oposição às reformas do Vaticano II e às revelações em Fátima. Para seus seguidores, isso reforça sua imagem como guardião da “verdadeira Igreja”, uma narrativa que polariza ainda mais o debate.

As raízes ideológicas de Lefebvre amplificam essas tensões. Discípulo de Henri Le Floch, reitor do Pontifício Seminário Francês em Roma, Lefebvre foi influenciado pelo maurrasismo e pela Action française, movimentos nacionalistas e tradicionalistas condenados por Pio XI em 1926 por seu catolicismo instrumentalizado para fins políticos. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele apoiou o regime de Vichy de Marshal Pétain, que colaborou com os nazistas, por sua suposta “ordem católica”. Mais tarde, expressou simpatia por ditadores alinhados com o fascismo como Franco (Espanha), Salazar (Portugal), Videla (Argentina) e Pinochet (Chile), todos regimes autoritários que usaram o catolicismo como fachada ideológica.

Lefebvre também foi membro da Cité catholique, aqui uma aproximação com o Opus Dei, fundada por Jean Ousset, ex-secretário de Charles Maurras e colaborador do regime de Vichy. Condenado por sua participação na perseguição de judeus, Ousset defendia um Estado nacional católico inspirado no franquismo. Seu livro Pour qu’Il règne (1949), prefaciado por Lefebvre, tornou-se referência para a FSSPX na Bélgica. Essas conexões revelam uma visão integralista – antimaçônica, anticomunista e alinhada à direita, que vai além da mera defesa da liturgia tridentina. Esse foi um dos motivos do racha com Plínio Corrêa de Oliveira, que era duro crítico do integralismo e do comunismo. Criou o cumprimento Salve Maria para contrapor aos integralistas – que se cumprimentavam com seu anauê. Não por acaso o rompimento do Dr Plínio Corrêa com Dom Castro Maier (com quem Lefevbre ordenou os 4 Bispos) – Plínio Corrêa nunca aceitou participar de grupos críticos ao papado.

O jornal soviético Izvestia chamou Lefebvre de “pastor dos neofascistas europeus”, enquanto o Southern Poverty Law Center (SPLC) inclui a FSSPX no movimento “católico tradicionalista radical”, associado a discursos antissemitas que culpam os judeus por conspirações contra a Igreja. Embora a FSSPX rejeite oficialmente o antissemitismo, essas associações históricas não podem ser ignoradas ao avaliar seu impacto.

Embora pareça inusitado para muitos, existe uma aproximação indireta do instituto Herzl (um dos fundadores do sionismo) com pessoas da FSSPX em Ribeirão Preto. O presidente do instituto, Yohan Hazony, teve um livro traduzido no Brasil por um membro da FSSPX. Fala sobre a Virtude do Nacionalismo. Aqui eu precisaria de muito espaço para explicar tal ligação aparentemente contraditória.

A Santa Sé mantém a FSSPX em status canônico irregular, exigindo sua aceitação do Vaticano II e da autoridade papal para uma reintegração plena. Em 2009, Bento XVI levantou as excomunhões dos bispos ordenados por Lefebvre, mas o diálogo doutrinário permanece estagnado devido a divergências irreconciliáveis sobre o Concílio. A crítica cita o Bispo Huonder, que viveu na FSSPX com permissão de Francisco e afirmou que a fraternidade não está em cisma. Contudo, isso não altera seu status oficial: a FSSPX opera à margem da Igreja, e suas ações continuam sendo vistas como um desafio à unidade eclesial.

O perigo maior reside na infiltração de ideias perenialistas e gnósticas em subgrupos tradicionalistas. A nostalgia pela liturgia tridentina pode conviver com noções universalistas ou elitistas, levando a cisões mais profundas, como o sedevacantismo ou a formação de seitas autônomas. A “porteira” aberta pelo perenialismo, como mencionei, atrai indivíduos que rejeitam tanto o secularismo quanto o “dogmatismo católico”, pressionando a FSSPX a adaptações heterodoxas que corroem sua identidade.

A crítica recebida falha em refutar os argumentos apresentados, limitando-se a negar as evidências e atacar minha integridade. Os fatos históricos – as ações cismáticas de Lefebvre, suas conexões com movimentos integristas e fascistas, a influência de Coomaraswamy e do perenialismo no entorno da FSSPX – sustentam a tese de que a fraternidade, embora focada na ortodoxia tridentina, orbita um campo ideológico perigoso. A vigilância da Santa Sé e a resistência da própria FSSPX a essas correntes limitam os riscos, mas subgrupos marginais continuam a representar uma ameaça real à unidade da Igreja.

Longe de ser “má fé”, esta análise é um convite ao exame crítico das tensões entre tradição e rebeldia. A FSSPX pode não rejeitar formalmente o “Trono de Pedro”, mas suas ações e influências históricas desafiam, na prática, a autoridade papal. Ignorar essas contradições é fechar os olhos para os fatos – algo que a crítica, em sua paixão, parece preferir fazer.

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