Desde os primórdios da humanidade, o fascínio pelo mistério e pela transcendência tem impulsionado os homens a buscar respostas para as questões mais profundas da existência. Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Essas perguntas ecoam em todas as culturas e épocas, moldando tradições religiosas, sistemas filosóficos e, mais recentemente, a investigação científica. No cerne dessa busca está o desejo de compreender o sagrado, aquilo que transcende o material e conecta o homem a uma realidade mais alta e significativa.
Ao longo da história, surgiram diversos caminhos e interpretações do sagrado. Nas culturas antigas, mitologias complexas procuravam explicar os fenômenos naturais e espirituais, frequentemente associando-os a deuses ou forças metafísicas. Com o avançar das eras, sistemas filosóficos e esotéricos (como a Cabala judaica, o hermetismo greco-egípcio e as doutrinas alquímicas medievais) passaram a oferecer leituras mais abstratas e “simbólicas” do universo. Esses sistemas buscam não apenas descrever o cosmos, mas também operar nele, oferecendo ao homem a ilusão de que pode participar ativamente de sua transformação e ascensão espiritual.
Entre essas tradições, as visões esotéricas adquiriram um papel de destaque, prometendo um conhecimento oculto reservado apenas a poucos escolhidos. Essas tradições esotéricas frequentemente reinterpretam o sagrado sob uma ótica gnóstica, onde o conhecimento (gnosis) é a chave para a redenção e para a compreensão do universo.
No entanto, enquanto tais caminhos frequentemente enfatizam o papel do homem como criador e intermediário do sagrado, o Cristianismo oferece uma visão radicalmente diferente – em vez de exaltar o homem como detentor de um conhecimento especial que o eleva ao divino, o Cristianismo apresenta um Deus que vem ao encontro do homem. A Encarnação do Verbo em Jesus Cristo é o ponto central dessa visão: Deus não é apenas uma força transcendente, mas um Pai amoroso e pessoal que entra na história humana para redimi-la.
Esse contraste entre as visões esotéricas e a revelação cristã representa mais do que uma simples diferença teológica; é um confronto entre duas compreensões fundamentais do sagrado e do papel do homem no cosmos. O Catolicismo rejeita a ideia de um conhecimento secreto e elitista, afirmando que a salvação é um dom universal oferecido a todos por meio de Cristo. Essa universalidade encontra expressão nos sacramentos, especialmente na Eucaristia, onde o mistério da Encarnação e do sacrifício redentor de Jesus se tornam presentes e acessíveis. A Eucaristia remete a um ponto central que conecta o céu e a terra, o divino e o humano, e representa a Ordem Cósmica e a harmonia entre o mundo material e o transcendente.
Na tradição católica, a figura de Cristo é frequentemente interpretada como o verdadeiro “Eixo do Mundo”, já que Ele é a ponte entre Deus e a humanidade. Cristo, através da sua encarnação, morte e ressurreição, unifica o mundo temporal ao eterno. Ele é o centro de toda a criação, e todas as coisas convergem n’Ele.
Os signos – seja na forma de sacramentos, rituais ou até símbolos naturais (como a luz, a água, a cruz) – atuam como pontes que conectam o divino ao humano. Eles permitem que o homem, que vive na terra, participe da ordem celestial. O “Axis Mundi”, neste contexto, seria não apenas um centro geográfico ou físico, mas uma realidade espiritual que conecta a terra ao céu, e isso se dá através dos signos que o homem interpreta e experimenta. Isso se manifesta, por exemplo, na prática sacramental da Igreja, onde cada sinal, cada símbolo, participa da realidade transcendental e traz consigo uma verdade divina.
Entretanto, para uma maior compreensão da semiótica aqui discutida, é preciso fazer uma distinção entre SÍMbolos e DIÁbolos, que se apresenta de forma profunda tanto em uma perspectiva teológica quanto etimológica. O prefixo de ambas as palavras, “sim-” e “dia-“, revela, em seu sentido original, o modo como essas entidades se relacionam com a realidade, o transcendente e a ordem divina. Vamos explorar essas duas palavras em seus significados profundos, além de suas implicações teológicas.
O termo símbolo vem do grego “symbállein” (συμβάλλειν), que significa “juntar” ou “unir”. O prefixo “sim-” ou “sym-” denota união, como no caso de palavras como “sintético” (que se refere a algo que reúne ou combina diferentes partes em uma totalidade). Assim, um símbolo é, etimologicamente, algo que une o mundo material com uma realidade espiritual, divina ou transcendental.
No contexto teológico, um símbolo é algo que representa e participa de uma realidade além de si mesmo. Ele une o que é visível e o que é invisível, o transcendente e o imanente. No Catolicismo, como já exposto, os sacramentos são símbolos de Graça Divina – não apenas algo que aponta para Deus, mas algo que participa da realidade divina que ele simboliza. A água do batismo, o Corpo e o Sangue de Cristo na Eucaristia, são símbolos porque unem o mundo material ao espiritual.
Já o termo diábolo vem do grego “diabállō” (διαβάλλω), que significa “dividir” ou “separar”. O prefixo “dia-” denota separação ou divisão. Enquanto o símbolo une, o diábolo separa – ele divide o homem de Deus, da Verdade levando a mentira, distorcendo a ordem e encaminhando ao caos. Em teologia cristã, o diabo é visto como aquele que divide e distorce a verdade, conduzindo as almas ao erro e à perdição.
Na tradição cristã, o diabo é, essencialmente, o inimigo da ordem divina, um agente que tenta dissociar o ser humano da verdade de Deus. Ele não apenas distorce a ordem criada, mas também trabalha para dividir a criação, obscurecendo o verdadeiro propósito e a verdade de Deus. Ao dividir e separar, o diabo cria ilusão e confusão, levando as almas para longe da luz divina. Um diábolo é aquele que tenta dividir o cosmos e a alma humana de seu fim último, que é a união com Deus.
Enquanto os símbolos são meios de união entre o material e o espiritual, apontando para a realidade transcendental e nos conectando com o divino, os diábolos têm como função destruir essa união e nos afastar da verdade. A ação do diabo pode ser vista como uma tentativa de criar distância entre os seres humanos e Deus, dissociando a criação do seu propósito final.
Poderíamos ver os símbolos como elementos que participam da ordem divina, refletindo a harmonia e a inteligência que permeiam o cosmos. O diábolo, por outro lado, tenta deturpá-la – ele seria o agente da entropia espiritual, que tenta desorganizar e fragmentar a ordem cósmica estabelecida por Deus.
Matriz é o lugar onde se é gerado. Intelecção é a capacidade da inteligência quando intelige, quando capta algo da realidade.
A análise das palavras “matriz” e “intelecção” no contexto do símbolo como “matriz de intelecções” traz à tona uma abordagem filosófica e teológica que revela a profundidade ontológica do símbolo enquanto gerador de significado e de conexão entre a realidade material e espiritual.
A palavra matriz origina-se do latim “matrix”, que significa útero, origem, ou moldura geradora. Assim, no contexto simbólico, matriz é o lugar onde algo é gerado, tomando forma e adquirindo uma existência plena. A matriz é mais do que um espaço físico; é um princípio ontológico que contém a capacidade de gerar uma realidade ou um sentido. No caso dos símbolos, a matriz seria o princípio de significação que gera intelecção, ou seja, conhecimento e apreensão do real. A matriz, enquanto lugar de geração, está presente em toda a criação. Ela é o espaço metafísico onde o potencial se torna atual.
A palavra intelecção deriva do latim “intellectio”, que significa compreensão ou ação de entender. Está intimamente ligada ao verbo “intelligere”, composto de “inter-” (entre) e “legere” (ler, escolher, discernir). Assim, intelecção é o ato de “ler entre as coisas”, ou seja, de discernir significados “ocultos” ou subjacentes à realidade visível. A intelecção é a capacidade da mente humana de captar a essência ou a verdade de algo. Em relação ao símbolo, a intelecção é o processo de decodificar a matriz geradora de sentido. Isso implica que o símbolo não apenas contém significado, mas também exige um ato cognitivo do observador para revelar e participar desse significado.
Quando dizemos que o símbolo é uma matriz de intelecções, estamos afirmando que o símbolo é um princípio gerador de significados que exige do observador a ação de captar e compreender sua relação com a realidade maior. O símbolo é uma ponte, mas essa ponte só cumpre sua função quando a inteligência humana, iluminada pela Graça Divina, se engaja no ato de inteligir.
Um símbolo como matriz não tem apenas um único significado; ele gera intelecções múltiplas dependendo da profundidade com que é explorado. Por exemplo, a cruz, como símbolo, contém camadas de significado: ela é ao mesmo tempo histórica, teológica, cosmológica e redentora.
Enquanto o símbolo é uma matriz que gera intelecções e unidade, o diábolo atua como um anti-matriz, ou seja, um princípio de dispersão e confusão. O diábolo, em vez de gerar intelecções, dissolve significados, introduzindo caos e distorção. A Matriz (símbolo) gera intelecção, unidade e verdade. A Anti-matriz (diábolo) fragmenta, divide e distorce a realidade, impedindo a intelecção plena.
A frase “símbolo é matriz de intelecções” revela uma profunda verdade filosófica e teológica: os símbolos, enquanto matrizes, são lugares de geração de significado que exigem da inteligência humana um ato de intelecção para apreender as realidades mais profundas. No Catolicismo, isso reflete o movimento dinâmico da alma em direção ao divino, através de realidades materiais que apontam para a transcendência, tendo como eixo principal Nosso Senhor Jesus Cristo. Por outro lado, o diábolo se opõe a esse movimento, tentando desintegrar a matriz e bloquear a intelecção, desviando a alma da Ordem Divina e da Verdade.
