Por que precisamos ter paciência com a “ingenuidade” das pessoas, principalmente nesses tempos de forte ataque contra a Igreja?

Há poucos dias, choveram notícias e teorias sobre “verdades” escondidas pela Igreja, reveladas por grupos de “cientistas”. Tudo balela ratanabalesca gringa. O fato é que tais especulações foram compartilhadas por uma exótica quantidade de “sapiens”. Embora muitos não façam ideia, não há novidade sobre isso para a Igreja Católica. Anna Katharina Emmerick já havia descrito tais estruturas:

– “Cada uma dessas quatro cidades tinha seu próprio rei. Cada uma gozou de grande veneração no Egito, onde, por Semíramis, que o primeiro rei, que era um rei-sacerdote, introduziu a idolatria, as artes diabólicas e espalhou a idolatria por toda a parte. Vi-a em Mênfis, onde eram feitos os sacrifícios humanos. Ela fazia planos, exercia a astrologia e praticava a magia. Não vi o touro Ápis nessa época, mas ídolos com uma cabeça comparável ao sol e uma cauda. Foi lá que ela fez os planos da primeira pirâmide, que foi construída na margem oriental do Nilo com a participação de todo o povo. Quando terminada a construção do edifício, vi Semíramis aparecer com algumas centenas de pessoas; era a inauguração e Semíramis foi honrada quase como uma deusa. A pirâmide foi edificada num sítio úmido e pantanoso. Construiu-se uma base de extraordinários pilares, como uma ponte grande e larga, sobre a qual se elevava a pirâmide, de forma que era possível passar sob ela, como um imenso templo sobre colunas. Nela havia numerosas salas, calabouços e câmaras profundas. A própria pirâmide, até seu topo, múltiplas peças, grandes e pequenas, com janelas nas quais vi suspender e benzer faixas de algodão. Ao redor de toda a pirâmide e benzer se tanques e jardins.”

A contraposição entre a visão de Anna Katharina Emmerick, que enxerga o subterrâneo das pirâmides como um símbolo de perdição espiritual, e as narrativas esotéricas modernas, que o veem como fonte de sabedoria oculta, evidencia o risco de os católicos serem atraídos por falsas narrativas. Esse apelo decorre de fatores como curiosidade, busca espiritual e desconfiança, mas pode ser superado com uma fé bem fundamentada e um discernimento atento. Assim, os católicos podem permanecer fiéis à verdade da Igreja, rejeitando ideias que, embora sedutoras, os afastam de Deus.

As visões sobre o subterrâneo das pirâmides revelam uma clara oposição entre perspectivas espirituais e narrativas contemporâneas. De um lado, temos a interpretação de Anna Katharina Emmerick, uma mística católica do século XIX. Para ela, as pirâmides do Egito, incluindo suas estruturas subterrâneas, são símbolos de idolatria e corrupção espiritual. Emmerick as descreve como “câmaras profundas” e “calabouços”, associando-as a práticas pagãs introduzidas por figuras como Semíramis. Essas áreas ocultas representariam, em sua visão, “mistérios ocultos” que conduzem à perdição espiritual, afastando o homem de Deus.

Do outro lado, há uma narrativa moderna, baseada em supostas descobertas arqueológicas recentes, como o mapeamento via satélite que sugere a existência de uma “cidade subterrânea” sob as pirâmides de Gizé, com poços e câmaras a grandes profundidades. Embora apresentada com um verniz científico, essa ideia é controversa e carece de validação acadêmica sólida. Ela tem sido apropriada por correntes esotéricas que ligam essas estruturas às “Salas de Amenti”, um conceito popularizado no século XX que reinterpreta a mitologia egípcia como fonte de sabedoria oculta e poder espiritual, distante da fé cristã.

O termo “Salas de Amenti” aparece pela primeira vez de forma explícita e detalhada em The Emerald Tablets of Thoth the Atlantean, um texto esotérico que teria sido “traduzido” por Maurice Doreal (também conhecido como Claude Doggins) em 1939. Doreal, um escritor e ocultista americano, fundou a Brotherhood of the White Temple, uma organização esotérica, nos Estados Unidos, no início do século XX. Ele alegou ter traduzido as tábuas de esmeralda de um original em uma língua atlante, que ele teria descoberto em 1925 durante uma expedição às pirâmides de Gizé. No entanto, não há evidências arqueológicas ou históricas que sustentem a existência dessas tábuas ou de sua tradução, e a narrativa é amplamente considerada uma criação moderna com inspirações em mitos egípcios e tradições esotéricas.

Na Tábua II – Os Salões de Amenti, Doreal descreve as Salas de Amenti como um espaço místico localizado “no coração da Terra”, abaixo das ilhas da Atlântida submersa, onde os “Filhos da Luz” teriam descido para libertar os homens da escravidão espiritual. Ele as apresenta como um local de sabedoria eterna, com tronos para os “Filhos da Luz”, uma “Flor de Luz e Vida” no centro, e sete “Senhores do Espaço-Tempo” que guiam a humanidade. A descrição é altamente simbólica e não corresponde a nenhuma evidência arqueológica conhecida do Egito antigo.

Embora Doreal seja o primeiro a narrar as Salas de Amenti de forma explícita, o conceito de Amenti tem raízes mais antigas na mitologia egípcia. Na tradição egípcia, Amenti (ou Amentet) era o reino dos mortos, associado ao submundo e à deusa Amentet, que recebia as almas no além. Textos como o Livro dos Mortos (datado de cerca de 1550 a.C.) mencionam Amenti como um lugar de julgamento e transição espiritual, mas não descrevem “salas” específicas ou uma estrutura física como a narrada por Doreal. A visão de Doreal, portanto, é uma reelaboração moderna que mistura elementos egípcios com ideias esotéricas do século XX, como a Atlântida e a intervenção de seres superiores

Essa contraposição reflete duas visões ontológicas distintas: para Emmerick, o subterrâneo das pirâmides é um alerta contra a idolatria e o paganismo; para as narrativas esotéricas, é um espaço de revelação mística e elevação espiritual. É nesse contraste que os católicos podem se ver vulneráveis a falsas narrativas.

Os católicos, como qualquer grupo, podem ser seduzidos por ideias que, à primeira vista, parecem fascinantes ou espiritualmente enriquecedoras, mas que contradizem os fundamentos da fé cristã. No caso das pirâmides e das narrativas associadas ao seu subterrâneo, essa atração pode ocorrer por diversos motivos:

A promessa de segredos antigos escondidos sob as pirâmides, como as “Salas de Amenti”, desperta curiosidade. Essas histórias, frequentemente divulgadas de forma sensacionalista, podem atrair católicos que buscam algo além do que percebem como a “rotina” da fé tradicional, oferecendo uma suposta “verdade escondida” que a Igreja não revelaria.

O Egito antigo é um tema de interesse universal, e descobertas arqueológicas, mesmo que especulativas, podem capturar a imaginação. Católicos com interesse histórico podem se sentir inclinados a explorar essas narrativas, sem perceber que elas frequentemente se desviam para interpretações esotéricas incompatíveis com a doutrina católica.

A ideia de que as pirâmides guardam conhecimentos espirituais profundos pode seduzir aqueles que buscam uma experiência mística mais intensa. As “Salas de Amenti”, por exemplo, são apresentadas como um portal para a iluminação, o que pode parecer atraente a católicos que, por desconhecimento ou insatisfação, procuram algo fora da tradição da Igreja.

Alguns católicos, influenciados por críticas à Igreja ou por uma percepção de que ela “esconde a verdade”, podem ver nessas narrativas uma forma de validar suas dúvidas. A sugestão de que as pirâmides contêm segredos que desafiam a narrativa cristã oficial pode alimentar essa desconfiança.

Em um mundo globalizado, a exposição a crenças diversas pode levar a uma mistura acidental de ideias. Um católico pode, sem plena consciência, incorporar elementos esotéricos ou pagãos à sua fé, atraído pela aparente compatibilidade entre a espiritualidade cristã e essas narrativas alternativas.

As “Salas de Amenti”, popularizadas por movimentos esotéricos modernos, ilustram bem esse risco. Elas são descritas como um espaço mítico sob as pirâmides onde segredos cósmicos e espirituais estariam guardados, uma visão que contrasta diretamente com a interpretação de Emmerick de que tais estruturas simbolizam a corrupção espiritual. Um católico desavisado pode ser atraído por essa narrativa por:

– A ideia de acessar uma sabedoria perdida pode parecer enriquecedora;
– A menção a mapeamentos por satélite dá um ar de credibilidade, mesmo que os dados sejam mal interpretados ou exagerados; os ensinam e
– A busca por significado em tempos de incerteza pode levar à aceitação de ideias que oferecem respostas fáceis ou exóticas.

No entanto, essas narrativas desviam da fé católica, que rejeita a exaltação de criaturas ou poderes ocultos em lugar de Deus (Rm 1,25). O Catecismo da Igreja Católica alerta contra práticas e crenças que promovem o ocultismo ou o sincretismo, tornando essencial o discernimento.

Para evitar serem enganados por falsas narrativas, os católicos podem adotar algumas práticas:

– Conhecer ntos da Igreja, como o Catecismo e as Escrituras, ajuda a identificar ideias incompatíveis com a fé.
– Buscar informações em teólogos, documentos oficiais da Igreja e historiadores sérios, em vez de narrativas sensacionalistas.
– A oração e a meditação na Palavra de Deus mantêm a fé ancorada na verdade revelada.
– Histórias que parecem “boas demais para ser verdade” ou que contradizem a tradição cristã devem ser analisadas com cautela.
– Verificar as publicações dos “cientistas” que divulgam tais “descobertas” [1] .

[1]

Deixe um comentário