O grande problema da concentração de poder é a perigosa formação de uma ferramenta de controle e fiscalização que nunca existiu e possivelmente será utilizada por outros grupos políticos no futuro

A Revolução Francesa é um arquétipo clássico de como movimentos revolucionários, embora nascidos de ideais nobres, podem degenerar em regimes opressores. Inspirada pelos princípios de “liberdade, igualdade e fraternidade”, a revolução rapidamente descambou no Terror, quando figuras como Robespierre, em nome da virtude republicana, guilhotinaram não apenas inimigos da revolução, mas também aliados considerados “impuros”. O ciclo culminou no autoritarismo de Napoleão, que substituiu a monarquia por um império centralizado. Esse padrão – idealismo radical, purgas internas e ascensão de uma nova tirania – repete-se em outros contextos, como na Revolução Russa de 1917, que, após derrubar o czarismo, viu Stálin institucionalizar um regime de terror ainda mais sistemático. De forma semelhante, a Revolução Cultural na China ilustra como a busca pela pureza ideológica pode gerar um ambiente propício à violência e à perseguição, onde os próprios fundamentos que mobilizaram a transformação social são subvertidos para legitimar a censura, o exílio e, até mesmo, a eliminação física de indivíduos considerados desviantes do ideal dominante.

Na contemporaneidade, um paralelo inquietante emerge com a noção de um Technate – termo que remete a uma technocracia, governada por especialistas e sistemas algorítmicos – fomentado por Elon Musk e sua agência DOGE. A proposta, à primeira vista, é sedutora: progresso tecnológico acelerado, descentralização financeira, fim das pautas woke, remoção de uma casta claramente corrupta. No entanto, como na Revolução Francesa, os mecanismos criados para emancipar podem se tornar instrumentos de opressão.

Essa concentração de poder tecnológico permite manipulação de informações, vigilância em massa e dependência econômica – contradizendo a promessa libertária inicial. Sistemas de IA e robótica, idealizados para libertar humanos do trabalho árduo, podem gerar desemprego estrutural, ampliando desigualdades. Quem controla os algoritmos controla a distribuição de recursos, replicando hierarquias sob nova roupagem – não por acaso Musk defende a pauta da Renda Básica Universal.

Um paralelo inquietante pode ser traçado com a experiência vivida durante o regime nazista, em que a busca por uma eficiência administrativa foi exacerbada pelo uso de tecnologias de ponta para a época. Empresas como a IBM desempenharam um papel controverso nesse contexto ao fornecerem sistemas de processamento de dados – notadamente através do uso de cartões perfurados – que possibilitaram ao governo nazista uma administração burocrática extremamente minuciosa. Essa “otimização” dos mecanismos de controle facilitou a implementação de políticas de vigilância, discriminação e, de maneira trágica, genocídio.

Assim como Robespierre foi idolatrado até se tornar alvo da guilhotina, Musk personifica o “tecnoprofeta” , cuja imagem pública é tanto força motriz quanto ponto fraco. Seus projetos dependem de sua influência, mas uma crise (ex.: falha em conduzir eficientemente o governo, colapso financeiro) pode levar à sua queda, deixando um vácuo preenchido por estruturas ainda mais impessoais e autoritárias.

A Revolução Francesa ensina que a busca por um “novo homem” e uma sociedade perfeita frequentemente exige sacrifícios humanos e institucionaliza a violência. No Technate de Musk, a tirania não surgiria de guilhotinas, mas de algoritmos que ditam comportamentos, criptomoedas que escravizam economicamente e uma narrativa de “progresso inevitável” que silencia dissidências. Musk, como os jacobinos, poderia ser tragado por suas próprias criações: uma IA descontrolada, uma crise financeira das criptomoedas ou uma rebelião contra a centralização tecnológica. O regime resultante, gerido por sistemas autônomos e corporações sem rosto, seria não apenas mais tirânico, mas também mais inescapável pois, diferentemente de um rei ou ditador, não se pode depor um algoritmo.

Assim, a lição histórica permanece: evoluções, mesmo as tecnológicas, devem ser temperadas por limites éticos e freios ao poder. Caso contrário, viram revolução e repetem o ciclo eterno de devorar seus filhos e erguer novos altares à tirania.

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