O Espírito do Protestantismo e a Nova Religião Interior

A Reforma Protestante é muitas vezes apresentada como uma reação ao autoritarismo romano, à venda de indulgências e à corrupção da Cúria – o que, em parte, é verdade. No entanto, essa narrativa moralizante não explica o fenômeno em sua profundidade espiritual. A ruptura de Lutero com Roma não foi apenas um ato de rebeldia ética, mas a manifestação de um novo espírito religioso que vinha se gestando nas entranhas da cristandade ocidental: uma religiosidade subjetiva, interiorizada, não-sacramental, anti-hierárquica e progressivamente desligada da Tradição. Esse espírito, embora revestido da linguagem bíblica, traz em si a matriz gnóstica e cabalística que já circulava entre intelectuais, ocultistas e reformadores sociais da época.

O luteranismo, por exemplo, manteve a crença em alguns sacramentos, como o Batismo e a Eucaristia, mas esvaziou-os da ontologia sacramental católica. A Eucaristia deixou de ser um sacrifício renovado e tornou-se uma simples “presença real” subjetiva, mediada pela fé do crente. O Batismo perdeu sua eficácia ex opere operato e tornou-se um sinal que apenas acompanha a eleição divina. O sacerdócio foi abolido como mediador da graça, e o culto transformado em um ato de instrução e exortação moral. A missa foi substituída pela pregação. A teologia virou exegese. A fé deixou de ser adesão a uma doutrina revelada e passou a ser um sentimento de confiança interior. Em tudo isso, observa-se a erosão do catolicismo ontológico e sua substituição por um cristianismo psicológico.

Mas essa transformação não surgiu do nada. Ela tem antecedentes históricos no misticismo medieval (como o de Meister Eckhart e dos begardos), no espiritualismo de Savonarola, na pietas devotio moderna dos Irmãos da Vida Comum, e – como demonstrado anteriormente – nas correntes herméticas, cabalísticas e gnósticas do Renascimento. Todas essas influências convergiam para uma mesma direção: a emancipação da alma em relação à mediação eclesial. O “Deus interior” substitui o “Deus da Igreja”. A fé passa a ser uma iluminação individual, muitas vezes associada a experiências místicas, êxtases e revelações privadas. Essa religião da interioridade – que hoje muitos identificam com o evangelicalismo mais emocional – tem, em seu núcleo, o germe de uma espiritualidade esotérica.

A partir de Lutero, o campo se abriu para múltiplas interpretações pessoais da Escritura. Surgiram seitas e movimentos que reinterpretavam livremente o Apocalipse, a criação, os anjos, o pecado original. Os anabatistas, por exemplo, defendiam uma comunhão espiritualista sem batismo infantil. Thomas Müntzer falava de uma nova revelação divina através dos “eleitos”. Jakob Böhme – místico protestante por excelência – propunha uma teologia da luz, da polaridade cósmica e da reintegração espiritual do homem ao pleroma. Cada um desses pensadores carrega marcas profundas de um conhecimento não católico, de um imaginário esotérico que dialoga mais com a Cabala e o hermetismo do que com o Evangelho interpretado segundo a Tradição dos Padres.

A partir do século XVII, essa orientação esotérica no seio do protestantismo se cristalizou nas fraternidades ocultistas – Rosa-Cruz, Maçonaria especulativa – cujas origens, como dissemos, são posteriores a Lutero, mas cujos fundamentos ideológicos estavam presentes nos séculos anteriores. É notório, por exemplo, que muitos dos primeiros membros das lojas maçônicas eram protestantes, especialmente calvinistas. A Maçonaria especulativa nasceu na Escócia e na Inglaterra protestante, onde a autoridade da Igreja havia sido substituída por uma forma de religiosidade ética, filosófica e iniciática. O modelo sacramental havia sido rompido; restava a busca de uma espiritualidade alternativa, adaptada à modernidade racionalista e à subjetividade iluminista.

O mesmo se pode dizer do pietismo e do metodismo, movimentos protestantes do século XVIII que colocavam o foco na “experiência de conversão”, no arrependimento pessoal e na regeneração do coração. Trata-se de um cristianismo profundamente interior, emocional, avesso à teologia sistemática e à liturgia tradicional. Muitos desses movimentos, mesmo sem adotar uma linguagem esotérica explícita, perpetuaram a gnose moderna: a religião como conhecimento interno e transformador, muitas vezes baseado em sensações, visões e revelações.

A crítica protestante à Igreja Católica não foi apenas uma crítica à corrupção ou ao autoritarismo: foi uma rejeição progressiva da própria estrutura sacramental da realidade. Isso explica por que o protestantismo, ao longo dos séculos, gerou não apenas outras igrejas, mas também filosofias religiosas sem Igreja alguma: o deísmo, o racionalismo iluminista, o existencialismo protestante, o liberalismo teológico, a “fé sem religião” do mundo contemporâneo. A Reforma é, nesse sentido, o berço espiritual da modernidade secularizada. E o que estava por trás dessa guinada era, em grande parte, uma nova concepção de revelação: simbólica, interior, pessoal – em suma, esotérica.

Essa guinada, ainda que inconsciente para muitos, não foi acidental. Os reformadores, mesmo quando combatiam a Cabala ou o judaísmo em termos explícitos, estavam imersos em um ambiente intelectual saturado de suas ideias. Lutero, como já vimos, era influenciado por Reuchlin e, por meio de Melanchthon, também recebeu ecos do pensamento mágico-naturalista. Calvino, embora mais sóbrio, construiu uma teologia marcada pelo nominalismo e por uma visão da graça que desumaniza a liberdade humana – algo mais próximo do determinismo cabalista do que da pedagogia moral cristã.

Tudo isso nos permite afirmar, com responsabilidade histórica e teológica, que a Reforma não foi apenas uma cisão institucional na Igreja. Ela representou uma mudança de paradigma espiritual. E esse paradigma se fundou não apenas sobre a Escritura, mas sobre uma nova hermenêutica da experiência religiosa – subjetiva, abstrata e, em muitos casos, esotérica. O “sola Scriptura”, longe de significar um apego literal à Palavra de Deus, tornou-se um passe livre para múltiplas hermenêuticas espirituais, muitas das quais vinham – e ainda vêm – das fontes ocultas da tradição mística judaica e gnóstica.

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