A Reforma Protestante não surgiu num vácuo teológico. Para compreendê-la adequadamente, é preciso reconhecer o tecido cultural e espiritual que a antecedeu e a tornou possível. Os séculos XIV e XV foram marcados por um progressivo deslocamento da cosmovisão católica tradicional para uma mentalidade mais subjetiva, individualista e racionalista – fenômeno que os historiadores costumam agrupar sob o nome de Renascimento. Este não foi apenas um renascimento das letras clássicas, mas também de doutrinas ocultas, heresias antigas e especulações que haviam sido rechaçadas ou silenciadas pela Igreja durante a Idade Média. Uma dessas doutrinas foi a Cabala judaica.
A chamada Cabala Cristã, cujo nome é por si mesmo um oxímoro, surgiu da fusão entre a mística judaica e o neoplatonismo renascentista. Ela foi introduzida no seio da Cristandade por pensadores como Giovanni Pico della Mirandola e seu discípulo Johannes Reuchlin, ambos figuras centrais no movimento humanista. Pico, influenciado por fontes judaicas e árabes, chegou a afirmar que a Cabala era a chave para demonstrar a verdade do Cristianismo – uma inversão curiosa, já que para os cabalistas judeus, ela era justamente o instrumento para preservar o núcleo esotérico do judaísmo contra a revelação cristã.
A partir da tradução de textos cabalísticos para o latim (como o Sefer Yetzirah, o Zohar, e obras de Abulafia e Gikatilla), formou-se um corpo doutrinal que alimentava especulações sobre nomes divinos, numerologia sagrada, estruturas do universo, e estados da alma. Esse universo simbólico e cosmológico era completamente alheio à teologia católica baseada na Revelação e na tradição patrística, mas ganhou prestígio entre intelectuais renascentistas interessados em penetrar os “mistérios ocultos” da Criação. Com a queda de Constantinopla (1453), muitos manuscritos e pensadores orientais migraram para o Ocidente, aumentando ainda mais essa infusão mística.
Na Alemanha, essa corrente encontrou eco em Reuchlin, autor do De verbo mirifico e do De arte cabalistica. Reuchlin era contemporâneo de Lutero e esteve no centro de uma polêmica envolvendo a preservação dos livros judaicos. Contra a pressão de setores católicos que defendiam sua destruição, Reuchlin posicionou-se a favor da manutenção e estudo desses textos – posição elogiada por humanistas como Erasmo de Roterdã e que antecipa a atitude ambígua de muitos reformadores em relação ao legado judaico. Ainda que o antijudaísmo social fosse comum à época, a fascinação intelectual por suas doutrinas místicas estava em crescimento.
Além da Cabala, outros elementos esotéricos fermentavam o imaginário renascentista. A redescoberta dos escritos herméticos atribuídos a Hermes Trismegisto, assim como o influxo da astrologia neoplatônica e das ciências ocultas (alquimia, numerologia, simbolismo) criaram um campo fértil para o surgimento de uma religiosidade sincrética, subjetivista e cada vez mais distanciada da ortodoxia católica. É neste clima que se deve entender o surgimento do protestantismo: como um fenômeno que, embora aparentemente baseado na Bíblia, foi profundamente afetado por essas correntes filosóficas e esotéricas.
Essa cultura da “retomada dos segredos antigos”, que supostamente precediam o Cristianismo histórico, favoreceu a ideia de que havia uma sabedoria mais pura, escondida sob os dogmas da Igreja. A fé deixava de ser transmissão da verdade revelada e passava a ser interpretada como experiência, descoberta, iluminação pessoal – uma tendência que encontrou abrigo na ênfase protestante sobre a leitura individual da Escritura e na rejeição do Magistério e da Tradição.
É sintomático que os primeiros reformadores tenham sido formados nesse mesmo ambiente: leitores ávidos dos humanistas, entusiastas da redescoberta das línguas originais (hebraico e grego), e seduzidos pela ideia de um retorno à “pureza” da fé. Mas essa pureza era, em muitos casos, uma tela para projetar doutrinas já contaminadas pelas ideologias renascentistas – e especialmente por elementos judaizantes e gnósticos disfarçados de crítica e reforma.
Com esse pano de fundo, torna-se possível compreender melhor a figura de Lutero, que será analisada na próxima parte. Seu rompimento com Roma não foi apenas teológico ou moral: foi também, e talvez sobretudo, simbólico e espiritual. Em suas próprias palavras, ele admitia ser “um espírito diferente” – e, como veremos, esse espírito não era o da Tradição apostólica.
