”O socialismo é inconcebível sem engenharia capitalista em larga escala baseada nas últimas descobertas da ciência moderna. É inconcebível sem organização estatal planejada que mantenha dezenas de milhões de pessoas na mais estrita observância de um padrão unificado na produção e distribuição. Nós, marxistas, sempre falamos sobre isso, e não vale a pena desperdiçar dois segundos falando com pessoas que não entendem nem isso (anarquistas e uma boa metade dos socialistas-revolucionários de esquerda)”.
“Left Wing”, texto escrito por Lenin em 1918.
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A colaboração entre agências governamentais e gigantes tecnológicos, sob o guarda-chuva do nacionalismo econômico, estaria criando um ecossistema onde políticas públicas e interesses corporativos se confundem. Sistemas de IA, vigilância digital e plataformas centralizadas são apresentados como mecanismos para monitorar cidadãos e suprimir dissidências, mesmo sob o pretexto de “proteção” ou “eficácia”. O uso estratégico de medos sociais (como imigração descontrolada ou crises sanitárias) justificaria a expansão de poderes emergenciais e a erosão de liberdades civis.
Sistemas centralizados de vigilância ou gestão social, mesmo que justificados como “necessários”, corroem a capacidade das comunidades de autogoverno e substituem a deliberação humana por algoritmos. Isso não apenas desumaniza a política, mas também abre espaço para abusos, já que o poder concentrado raramente presta contas àqueles que impacta.
A aliança entre discursos nacionalistas e megacorporações revela uma contradição fundamental: enquanto se mobiliza o medo de “ameaças externas”, permite-se que entidades transnacionais (como empresas de tecnologia ou conglomerados financeiros) operem sem fronteiras éticas ou legais. Isso cria uma distopia onde a soberania popular é sacrificada em nome da segurança, enquanto o verdadeiro poder se concentra em entidades não eleitas e sem rosto.
Manipulação de crises e a perda da liberdade podem levar a a normalização de “estados de exceção” – como lockdowns digitais ou monitoramento biométrico – justificados por emergências reais ou fabricadas. Uma sociedade que aceita trade-offs permanentes entre liberdade e segurança, sem questionar quem controla essas ferramentas ou quais interesses estão em jogo, caminha para um contrato social vazio. A vigilância generalizada, mesmo que inicialmente direcionada a “inimigos” políticos ou sociais, tende a se expandir para controlar toda a população, sufocando a diversidade de pensamento e a liberdade de consciência.
Movimentos que se autoproclamam “anti-sistema” muitas vezes reproduzem as mesmas estruturas de poder que criticam, seja por ingenuidade estratégica ou má-fé. A retórica de “combater as elites”, o “Deep State”, pode mascarar a criação de novas elites, ainda mais entrincheiradas por sua conexão com aparatos tecnológicos e financeiros. A verdadeira transformação social exige mais que troca de grupos no poder; requer uma reavaliação radical de como o poder é distribuído e controlado.
A partir dessa distopia, veremos uma esquerda que retomará Marx, destacando que o capitalismo, especialmente em sua fase “cognitiva” (baseada em tecnologia, informação e trabalho imaterial), gera as condições materiais para sua própria superação. A infraestrutura tecnológica (como automação, redes digitais e inteligência artificial) criará ferramentas que podem ser reapropriadas para fins que visarão princípios coletivos. A esquerda irá acelerar processos específicos do capitalismo (tecnológicos, organizacionais) para intensificar suas contradições (desigualdade, “crises ecológicas”, e outras). Isso não implica apoiar o capitalismo, mas explorar seu desenvolvimento para expor seus limites e fragilizar sua lógica de valor.
Ao levar o capitalismo a seus extremos, sua insustentabilidade, nestes padrões, torna-se mais visível, gerando crises que abrem espaço para alternativas radicais. A esquerda se prepara para propor sistemas pós-capitalistas baseados em racionalidade tecnológica, “democracia” radical e distribuição igualitária.
Já surgem criticas à esquerda tradicional por se limitar à resistência ou à nostalgia de modelos antigos. Grande parte já propõe, em vez disso, um engajamento ativo na construção de futuros alternativos, usando a inovação tecnológica e redes globais para criar novas instituições políticas e econômicas. A estratégia envolve riscos, como o agravamento de crises sociais no curto prazo. Parte da esquerda já está defendendo um horizonte emancipatório, combinando avanço tecnológico com justiça social.
O norte será reapropriar as forças produtivas capitalistas para dissolver sua “lógica de exploração”, alinhando-se à visão marxista de que o capitalismo contém as sementes de sua própria transformação.
