Para compreendermos plenamente o pano de fundo da Reforma Protestante, é necessário voltar o olhar para a presença dos judeus convertidos – os chamados conversos ou marranos – e seu papel na difusão de ideias cabalísticas, herméticas e gnóstico-alquímicas no ambiente cristão renascentista. Muito antes de 1517, já se consolidava uma rede de transmissão de conhecimentos esotéricos entre judeus, cristãos e neoplatônicos, cujos ecos chegariam ao âmago das ideias reformadas. É no seio dessa tradição que figuras como Lutero e seus sucessores se formaram – mesmo quando ignoravam, conscientemente, a origem profunda das influências que absorviam.
A expulsão dos judeus da Espanha em 1492 e de Portugal em 1497 forçou milhares de famílias judaicas a se converterem externamente ao cristianismo. Muitos desses convertidos mantinham em segredo suas práticas religiosas e, ao mesmo tempo, tornaram-se ativos na vida intelectual das cortes, universidades e igrejas da Europa. Eles carregavam consigo tradições profundas – não apenas da Halachá ou do Talmude, mas também da Cabala, particularmente da tradição luriana de Safed e da escola zohárica de Castela. A presença desses conversos em centros como Veneza, Antuérpia, Lyon, Frankfurt e mesmo Genebra criou pontes espirituais invisíveis entre o mundo hebraico e a Cristandade nascente da modernidade.
Muitos dos primeiros tradutores da Cabala para o latim eram judeus convertidos. Giovanni Pico della Mirandola, por exemplo, recebeu instruções de tais mestres e foi o primeiro a propor uma “Cabala cristã” sistemática. Cornelius Agrippa, Paracelso e Reuchlin – todos profundamente marcados por ideias cabalísticas – dialogavam, direta ou indiretamente, com tradições que vinham da Península Ibérica e do mundo sefardita. Johannes Reuchlin, em especial, travou contato com Elias Levita e outros judeus eruditos, e defendeu a Cabala como a chave hermenêutica para compreender a teologia cristã mais profundamente. Em seu De Verbo Mirifico e De Arte Cabalistica, Reuchlin propõe que os nomes de Deus em hebraico e os mistérios da sefirot são, de fato, antecipações da Trindade e da Encarnação.
Ora, Reuchlin foi mestre indireto de Melanchthon, que por sua vez era o mais próximo colaborador de Lutero. Seria ingênuo imaginar que esse fluxo de ideias não alcançou o próprio reformador. Ainda que Lutero tenha combatido duramente Reuchlin nos anos finais do conflito das indulgências, há paralelos notáveis entre a visão de linguagem, de fé e de experiência espiritual proposta por Lutero e os postulados cabalísticos reuchlinianos. A ênfase na Palavra como criadora de realidade, a valorização do nome divino, a ruptura com o aristotelismo e a ideia de um conhecimento interior, espiritual e intuitivo estão presentes nos dois. A teologia luterana, assim, surge não apenas como antítese da teologia escolástica, mas como síntese incompleta de muitas correntes subterrâneas que fermentavam na Renascença esotérica.
A Cabala – ao menos em sua leitura “cristã” – propõe que há sentidos ocultos por trás das letras, que a realidade é um tecido simbólico codificado, e que o conhecimento verdadeiro está reservado àqueles que ultrapassam a “casca” (klipah) das aparências. Tal epistemologia se opõe frontalmente à epistemologia eclesial clássica, que se apoia na revelação objetiva, interpretada sob o magistério da Igreja, e sustentada pelo princípio da analogia do ser. A perspectiva cabalística é voluntarista, linguística, muitas vezes nominalista, e sobretudo centrada em uma gnose progressiva do indivíduo.
Mais ainda: o cabalismo “cristão” introduz uma ideia profundamente perigosa – a de que a fé cristã pode ser “completada” por uma sabedoria anterior e secreta, uma tradição primigenial não revelada a todos, mas acessível por meio de símbolos, letras e iniciações. Essa é a matriz da ideia protestante de que cada fiel pode ser o próprio intérprete da Escritura – não porque ele esteja imerso na Tradição viva da Igreja, mas porque há um “espírito interior” que fala diretamente com ele. Aqui se observa o rompimento total com a economia dos sacramentos e a mediação eclesial: a Palavra se torna livre, como uma energia bruta que cada indivíduo molda conforme sua própria iluminação. Essa concepção não é, em sua raiz, bíblica nem patrística, mas mística, cabalística e gnóstica.
A difusão dessa espiritualidade esotérica entre os conversos encontrou terreno fértil nas universidades e cidades livres da Europa do Norte, especialmente nas que logo acolheriam o protestantismo. A influência dos marranos não se limita à teoria: muitos deles – como Paul Ricci, Diego de Valdés e até mesmo, em algumas conjecturas, Johannes Oporinus – foram figuras-chave na impressão de Bíblias, na disseminação de tratados herméticos, na construção de redes editoriais e culturais. Sua marca está por trás da nova visão do mundo que a Reforma expressaria em forma religiosa.
Se há uma ironia histórica, é esta: o protestantismo, ao expulsar o sacerdócio, os santos, a liturgia e os sacramentos, abriu caminho para um tipo de religiosidade que encontraria nos cabalistas e hermetistas seus verdadeiros herdeiros. A palavra de ordem da Reforma – sola Scriptura – significava, para muitos, não um retorno à simplicidade bíblica, mas a libertação do texto das amarras dogmáticas. Essa “palavra solta” torna-se então o campo aberto para leituras privadas, místicas, ocultas – como as que a Cabala sempre promoveu.
Em resumo, a influência dos judeus convertidos e dos cabalistas cristãos sobre o espírito da Reforma não é uma teoria conspiratória, mas uma constatação histórica. Suas ideias não apareceram com nomes e organizações formais, mas como fermento silencioso na massa cultural que gerou Lutero, Calvino, Zwingli e tantos outros. O ovo simbólico já estava no mundo – bastava que alguém o quebrasse.
