Ao longo desta sequência de textos, procurei demonstrar que a Reforma Protestante não pode ser compreendida adequadamente se for tratada apenas como um evento teológico ou eclesiástico. Ela foi, antes, uma inflexão profunda na espiritualidade do Ocidente – um ponto de mutação que abriu caminho para novas formas de religiosidade que, embora revestidas de terminologia cristã, foram se afastando gradualmente do catolicismo tradicional e aproximando-se de matrizes gnósticas, cabalísticas, alquímicas e místicas de variadas procedências.
A pretensão do “sola Scriptura”, de retorno às origens puras do cristianismo, revelou-se uma ilusão. O protestantismo não retornou às fontes apostólicas: reinventou-as sob novas lentes filosóficas e culturais, forjadas na crise do mundo medieval. Os reformadores rejeitaram o Magistério da Igreja, mas adotaram, em seu lugar, formas de conhecimento espiritual que já vinham fermentando o imaginário europeu – formas, como a Cabala, que prometiam uma iluminação interior desvinculada da Tradição e da hierarquia. Sob o pretexto de fidelidade à Bíblia (mesmo removendo livros deuterocanonicos e tentando remover os livros de Tiago, Hebreus e Apocalipse para ter uma bíblia adaptada a suas narrativas), muitas ideias não bíblicas (ou mesmo anti-bíblicas) penetraram silenciosamente na alma do protestantismo nascente.
Esse fenômeno pode ser resumido na figura ambígua de Lutero: um homem atormentado, profundamente religioso, mas também radical e teimoso. Lutero ampliou sua crítica às indulgências e condenou como idolatria a ideia de que a missa é um sacrifício e rejeitou a confissão compulsória. Em O Julgamento de Martinho Lutero sobre os Votos Monásticos, pode se perceber que ele garantiu aos monges e freiras que eles poderiam quebrar seus votos sem pecado porque, segundo ele e desconsiderando a história dos Joaquimitas, Cátaros entre outros, os votos eram uma tentativa ilegítima e vã de ganhar a salvação. Lutero, que há muito condenava os votos de celibato, casou-se com Katharina von Bora, uma das doze freiras que ele auxiliou a serem contrabandeadas em barris de arenque do convento cisterciense de Nimbschen em 1523, estabelecendo um modelo para a prática que permitia que o clero protestante se casasse. Sua angústia pessoal, em lugar de ser curada pela paciência da Igreja, foi projetada sobre ela como rebelião. E, no impulso de sua ruptura, ele abriu o espaço espiritual para uma subjetividade religiosa que não encontra mais repouso em dogmas, sacramentos ou comunhão visível. É nesse espaço que prosperaram as seitas, os cultos, os místicos iluminados, os profetas do fim dos tempos e, finalmente, os sistemas esotéricos modernos.
A Maçonaria, o Rosa-Cruzismo, o espiritualismo moderno e mesmo as religiões da Nova Era são descendentes – ainda que bastardos – daquele mesmo impulso que levou Lutero a pregar suas 95 teses. A crítica à autoridade eclesial, somada à ênfase na experiência interior, criou uma nova atmosfera onde o critério da verdade deixou de ser a Revelação custodiada pela Igreja e passou a ser a “iluminação da consciência individual”. Essa consciência, sem âncora na Tradição, tornou-se presa fácil de todo tipo de símbolo, fórmula e gnose disfarçada de cristianismo. A multiplicação das seitas e das “revelações privadas” é prova viva disso.
E, como era de se esperar, esse fenômeno não ficou restrito à esfera religiosa. A espiritualidade oculta da modernidade reformada contaminou também a política, a ciência e a cultura. A Revolução Francesa, os movimentos utópicos do século XIX, as revoluções ideológicas do século XX e, mais recentemente, o transumanismo e o relativismo moral contemporâneo têm raízes profundas nessa espiritualidade desligada da ordem objetiva da criação e da graça. Quando o homem se torna o único intérprete da verdade, toda verdade se dissolve. E nesse vazio, os “mestres da sabedoria oculta” não tardam a se apresentar.
Por isso, a tarefa dos católicos hoje não é apenas apologética, mas espiritual. Denunciar as raízes esotéricas da Reforma não deve ser um ato de revanchismo histórico, mas de zelo pela verdade revelada. É preciso mostrar que a única proteção contra a infiltração do ocultismo religioso é o retorno à fé integral da Igreja: dogmática, sacramental, hierárquica, encarnada. Só a Igreja fundada por Cristo, guardada pelo Espírito Santo e sustentada pela sucessão apostólica é capaz de resistir às seduções do falso conhecimento.
Martinho Lutero, mesmo quando rejeitava a Cabala ou o judaísmo em seu discurso antissemita, estava espiritualmente mais próximo desses mundos do que imaginava. Sua religião de fé solitária, desprovida de mediações, abriu espaço para uma espiritualidade que, ao fim e ao cabo, prepara o terreno para o Anticristo, sem perceber que o caminho para esse Anticristo foi pavimentado pelos próprios pressupostos da Reforma.
Se o combate aos erros da modernidade for feito apenas com apelos à Bíblia, sem a Igreja, sem a Tradição, sem os sacramentos, sem os santos, então não será combate, mas apenas mais um capítulo de uma nova heresia sob disfarce “conservador”. E nesse caso, a Cabala – com sua linguagem simbólica, suas múltiplas interpretações e sua gnose sedutora – continuará triunfando, não mais como doutrina marginal, mas como atmosfera espiritual da cristandade corrompida.
A única resposta verdadeira a essa crise é o retorno à Igreja una, santa, católica e apostólica. Pois fora dela não há salvação – e dentro dela, apesar das tribulações, há o Corpo de Cristo, a luz da Revelação e a garantia da verdade contra as trevas da serpente oculta.
