Compreendendo as bases do neocismatismo tradicionalista – introdução

Os últimos textos sobre protestantismo tiveram intuito de combater falácias logicas e outras incoerências já respondidas pela Igreja ao longo dos últimos 2000 anos, passando por concílios, cartas Apostólicas, e inúmeros debates em que já acusaram a Igreja Católica de promover “práticas extrabíblicas” como a intercessão dos santos, o purgatório e a autoridade do Magistério, defendendo uma leitura radical da sola scriptura. Essas críticas são baseadas em heresias já resolvidas pela Igreja nos primeiros séculos: o gnosticismo (que despreza a matéria e a mediação sacramental), o montanismo (que rejeita a Tradição em nome de revelações privadas) e o arianismo (que nega a divindade de Cristo). Ao ressuscitar esses erros sob linguagem moderna, algumas pessoas ignoram que a Igreja, guiada pelo Espírito Santo, definiu o cânon bíblico, estruturou a doutrina e preservou a unidade da fé contra divisões. Insinuar que um cânon definido ideologicamente e forçar incautos a seguirem suas falácias logicas, como alegar que Jesus disse “está escrito”, quando o Novo Testamento ainda não existia e, nisso basear a tese da Sola Scriptura, é de uma inaptidão pueril.

Porém, existem verdadeiras discussões recentes que apontam para desafios atuais que distorcem a fé cristã – e nisso vou me basear nos próximos dias – nas falácias e teorias dos neocismáticos tradicionalistas católicos. Essas próximos textos propõem uma análise crítica das posturas tradicionalistas radicais no catolicismo contemporâneo, especialmente aquelas que, em nome da Tradição e da fidelidade às profecias marianas, constroem uma leitura teológica que, embora revestida de ortodoxia, culmina em uma eclesiologia cismática. Toma-se como ponto de referência a recepção das mensagens de Fátima, a crítica ao Concílio Vaticano II, as teses de Álvaro Calderón (FSSPX) e as implicações da ruptura com o magistério vivo.

Desde as décadas finais do século XX, e com especial intensidade após os pontificados de São João Paulo II e Francisco, cresceu um movimento dentro da Igreja Católica que, embora se reivindique como defensor da Tradição, passou a sustentar leituras eclesiológicas incompatíveis com a comunhão visível e o magistério ordinário da Igreja. A partir daqui, poderíamos chamar essas alegações de neocismatismo tradicionalista, uma forma disfarçada de ruptura que se ancora em leituras escatológicas e proféticas, especialmente aquelas vinculadas às mensagens de Fátima.

A interpretação tradicionalista da mensagem de Fátima parte de uma premissa verdadeira – o alerta sobre a possível apostasia que começaria “pelo topo da Igreja” – mas frequentemente desdobra-se em leituras que, ao invés de buscar conversão, justificam uma rejeição prática da autoridade eclesial. Muitos desses movimentos fazem uso de documentos como Cum Ex Apostolatus Officio (1559) de Paulo IV, bem como de autores como São Roberto Belarmino, para sustentar a tese de que heresia material ou suspeita de heresia invalida a eleição papal (Belarmino, De Romano Pontifice, II, 30).

O problema, contudo, não reside apenas na escolha de fontes, mas na recusa em reconhecer que a autoridade para interpretar, aplicar e julgar essas fontes não pertence à consciência individual, mas ao MAGISTÉRIO vivo da Igreja. Ao declarar que os Papas conciliares são heréticos, ou ao duvidar sistematicamente da validade de suas ações, cria-se uma estrutura paralela de autoridade que esvazia o PRINCÍPIO de catolicidade, como da sequência de textos que escrevi contestando a visão protestante de Lutero.

A crise se agrava quando observamos a proliferação de narrativas conspiratórias que tentam explicar a situação eclesial por meio de teorias como a da “Irmã Lúcia impostora”, ou a interpretação de que o “bispo vestido de branco” no Terceiro Segredo de Fátima REFERIR-SE-IA não ao Papa legítimo, mas a figuras como Dom Marcel Lefebvre. Estas leituras, ainda que rejeitadas oficialmente pela Fraternidade São Pio X (FSSPX) e por outras instituições, circulam amplamente em redes sociais, blogs e publicações informais, sempre orbitando a FSSPX, gerando desorientação doutrinal.

A linguagem apocalíptica, como já se observava nos comentadores do Apocalipse segundo São João, é terreno fértil para delírios messiânicos e cismáticos. Como ironizava G. K. Chesterton: “Embora São João Evangelista tenha visto muitos monstros estranhos em sua visão, não viu criatura tão selvagem quanto um de seus próprios comentadores”. O uso constante de termos como “igreja eclipsada”, “Roma apóstata” e “nova religião conciliar” revela mais sobre a psicologia religiosa dos seus proponentes do que sobre a realidade da Igreja Católica.

Paradoxalmente reconhecido como possível maior estudioso tomista de nosso tempo, o teólogo argentino Álvaro Calderón, da FSSPX, propõe uma das mais influentes interpretações tradicionalistas da crise pós-conciliar. Em sua obra Prometeo: la religión del hombre, Calderón sustenta que o Vaticano II introduziu um novo princípio teológico antropocêntrico, corrompendo substancialmente o magistério da Igreja, ainda que sob forma legítima. Segundo ele, o Concílio e o magistério subsequente devem ser vistos como formalmente válidos, mas materialmente desviantes.

Essa tese, porém, incorre em sérias contradições teológicas. Primeiro, ao afirmar que o magistério pode ser externamente legítimo e internamente inválido, Calderón cria uma separação artificial entre a forma e a substância do ensino magisterial. Isso entra em conflito com o ensinamento do Concílio Vaticano I (Pastor Aeternus, cap. 4), segundo o qual a assistência do Espírito Santo protege o Papa não apenas na definição ex cathedra, mas também no exercício ordinário do magistério. Se esse magistério ensina erros sistemáticos, a indefectibilidade da Igreja é negada na prática.

Além disso, a hermenêutica da corrupção postula que o fiel pode, e deve, suspender o assentimento ao magistério ordinário da Igreja. Isso equivale, funcionalmente, à substituição do critério eclesial pelo juízo individual. A interpretação privada da tradição passa a ser o árbitro da ortodoxia, rompendo com o princípio católico de que é a Igreja, e não os seus membros, que autenticamente interpreta a revelação (Catecismo da Igreja Católica, n. 85).

Por fim, a tese de Calderón é epistemologicamente autorreferente. Apenas os que já aceitam sua leitura da crise e da Tradição são considerados capazes de discernir o erro do magistério. Trata-se de uma forma de neognosticismo eclesial, em que um grupo restrito detém a “verdadeira” interpretação da fé, enquanto o restante da Igreja, incluindo os Papas, teria sucumbido ao erro.

É necessário também reafirmar que, na tradição sacramental da Igreja, sem mandato pontifício, não há ordenação episcopal legítima. Como se vê claramente no rito de ordenação, é exigido que o presbítero apresente o mandato do Papa para que a ordenação proceda. Pio XII, em Ad Apostolorum Principis, recorda que quem recebe a ordem episcopal sem mandato é “ladrão e assaltante”, e o Concílio de Trento anatematiza quem sustenta que bispos não enviados pelo poder eclesiástico e canônico são legítimos ministros dos sacramentos.

A retórica da “necessidade” utilizada por certos grupos para justificar ordenações sem mandato papal foi expressamente rejeitada pelo Pontifício Conselho para os Textos Legislativos. Fingir submissão a Roma enquanto se reservam exceções práticas à obediência é hipocrisia sacramental. Não é tradição, mas sim subversão litúrgica e eclesiológica.

O paradoxo que emerge dessas posturas é teológico e eclesiológico: ao tentar proteger a Tradição, esses grupos negam os meios ordinários pelos quais ela é transmitida. A tradição católica não é um depósito morto acessado por autodidatas devotos, mas um organismo vivo sustentado pela sucessão apostólica e pela autoridade magisterial. Fora desse vínculo, qualquer ortodoxia se torna subjetiva e, em última instância, protestantizada.

As dúvidas que pairavam sobre o Concílio Vaticano II (que logicamente tem aceitação de sete Papas) foram solucionadas por Papas até Bento XVI, não deixando dúvidas que não sejam forçosamente criadas. Como afirmou Bento XVI, “a verdadeira herança do Concílio precisa ser encontrada na sua letra e espírito autênticos”, e não em interpretações paralelas, sejam progressistas ou restauracionistas (Discurso à Cúria Romana, 22 de dezembro de 2005).

A fidelidade à Tradição exige, antes de tudo, comunhão com a Igreja visível, mesmo sob provações. O zelo doutrinário que rompe a unidade não é virtude, mas tentação espiritual. E a profecia mariana, quando usada para justificar desobediência e suspeita generalizada, perde sua finalidade salvífica para se tornar instrumento de orgulho sectário. É preciso reconhecer que muitos dos erros atribuídos ao magistério recente decorrem de ambiguidades pastorais ou deficiências disciplinares, e não de negação explícita da fé. Em vez de construir tribunais privados de ortodoxia, cabe aos católicos que amam a Tradição viver sua fé em humildade, comunhão e obediência, pois a Tradição, fora da Igreja, deixa de ser católica.

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