A atração pela rebeldia e ao processo revolucionário sob a máscara de tradição

Coomaraswamy, embora não fosse católico, simpatizava com o tradicionalismo da FSSPX e chegou a lecionar em seus seminários. Sua aproximação ocorreu por compartilhar uma nostalgia pela tradição pré-moderna, mas sua visão perenialista e inclinações gnósticas (busca de um “conhecimento secreto” além da ortodoxia) criam uma tensão com a fé católica, que rejeita o sincretismo.

O perenialismo é uma corrente filosófica que defende a existência de uma ”tradição primordial” universal, comum a todas as religiões, da qual derivariam as tradições particulares. Autores como René Guénon, Frithjof Schuon e Coomaraswamy argumentam que todas as religiões são expressões de uma única verdade transcendente, embora adaptadas a contextos culturais. Essa visão relativiza a singularidade da Revelação cristã, colocando-a em pé de igualdade com outras religiões (hinduísmo, islamismo, etc.), o que conflita frontalmente com a doutrina católica da unicidade salvífica de Cristo

Sedevacantismo, resumidamente, é crença de que a Sé Romana está “vaga” desde o Vaticano II, considerando os papas recentes como ilegítimos. A FSSPX não adota oficialmente o sedevacantismo, mas alguns de seus membros simpatizam com a ideia. Coomaraswamy, ao flertar com essa posição, plantou uma semente de deslegitimação da autoridade papal, o que vem alimentando grupos sismáticos, uma verdadeira metástase para a Igreja.

Muitos membros da de grupos tradicionalistas vem de seitas ou influências gnósticas, onde possuíam um ávido costume de buscar entendimento através de conhecimento e ritos de iniciação. Essa busca por um “conhecimento superior” (gnose) além da Revelação cristã é incompatível com o catolicismo, que insiste na suficiência da fé e dos sacramentos.

A infiltração de ideias perenialistas em grupos tradicionalistas como a FSSPX pode criar uma espiritualidade híbrida, onde a adesão à liturgia tridentina convive com noções não-cristãs. Isso gera conflitos internos entre os que buscam “pureza tradicional” e os atraídos pelo universalismo.

Embora não seja assumido por membros misturados aos grupos tradicionalistas, o perenialismo é visto como uma “via intelectual” para justificar a rejeição ao Vaticano, e acaba levando esses grupos a um radicalismo estético, onde muitos rejeitam diálogos com Roma (como os esforços de Bento XVI e Francisco para regularizar a FSSPX), levando-os a braçar o sedevacantismo ou até formar seitas autônomas, rompendo totalmente com a Igreja.

O perenialismo atrai pessoas desiludidas com o secularismo, mas que não se satisfazem com o dogmatismo católico. Essa “porteira” tem levado para a órbita da FSSPX indivíduos que, no longo prazo, pressionem por adaptações heterodoxas, corroendo sua identidade.

A Santa Sé está ciente desses riscos e, por isso condena o perenialismo como incompatível com a fé, além de manter a FSSPX em status irregular, exigindo que ela aceite o Vaticano II e a autoridade papal para se reintegrar plenamente.

É novidade para poucas pessoas que, embora o Rito Tridentino seja de uma estética absolutamente majestosa, estamos sendo castigados com sua restrição exatamente por causa de grupos, muitas vezes sob a influência de pensadores perenialistas como Coomaraswamy sobre a FSSPX e outros grupos afins podem sim abrir brechas para rachaduras na unidade da Igreja, especialmente se suas ideias forem instrumentalizadas para justificar a rejeição radical da autoridade papal (sedevacantismo) e o elitismo espiritual (gnosticismo).

A resistência da própria FSSPX a essas correntes (por seu foco na ortodoxia tridentina) e a vigilância da Santa Sé limitam esse risco. O perigo maior está em subgrupos marginais que, sob o manto do tradicionalismo, possam adotar o perenialismo como justificativa para cisões ainda mais profundas.

Muitos membros desses grupos acabam enxergando em Dom Marcel Lefebvre um modelo de combate ao papado.O Papa veste branco como símbolo de sua autoridade suprema. Bispos usam roxo ou vermelho, dependendo do contexto. Embora a Fraternidade São Pio X (FSSPX) mantenha práticas pré-Vaticano II, incluindo vestes litúrgicas tradicionais, Dom Lefebvre provavelmente usava branco não como uma reivindicação ao papado, mas como parte de sua adesão à liturgia tradicional, que incluía a simbologia anterior às reformas. Entretanto, uso do branco por bispos na atualidade pode ser visto como uma provocação simbólica, sugerindo que ele se colocava em pé de igualdade com o Papa em matéria de autoridade tradicional. Essa atenção especial aos membros da FSSPX não é somente por uso de vestes brancas – Dom Lefevbre ordenou bispos sem mandato papal, o que é violação direta do Código de Direito Canônico (Cânon 1382). A Igreja considera isso um ato cismático, pois subverte a estrutura hierárquica. Ele justificou o ato como ”estado de necessidade” para preservar a tradição católica, alegando que a Igreja pós-Vaticano II estava em crise doutrinária. Para ele, a autoridade papal estava comprometida por “erros modernistas”, o que, em sua visão, legitimava ações extraordinárias. Ao ordenar bispos, Dom Lefebvre assumiu uma autoridade que só cabe ao Papa, mesmo sem declarar-se pontífice. Isso foi interpretado pelo Vaticano como uma negação prática da primazia papal. Dom Lefebvre e os bispos ordenados foram excomungados em 1988. A Santa Sé considerou o ato um cisma, pois ele criou uma estrutura paralela à Igreja.

Em 2009, Bento XVI levantou a excomunhão dos bispos da FSSPX, mas a fraternidade permanece sem status canônico regular. O diálogo doutrinário continua bloqueado, principalmente devido a divergências sobre o Vaticano II.

Dom Lefebvre nunca reivindicou o título de Papa ou questionou diretamente a legitimidade dos papas (como fazem os sedevacantistas). Sua crítica era às orientações do Vaticano, não à instituição papal em si. Suas ações, porém, criaram uma estrutura eclesiástica autônoma, o que, na prática, minou a autoridade do Papa. Isso levou alguns setores tradicionalistas a vê-lo como referência moral, embora não como pontífice. A FSSPX afirma estar em ”resistência” à “crise na Igreja”, não em cisma. Eles reconhecem a autoridade papal, mas alegam que os papas modernos “abandonaram a tradição”.

Dom Marcel Lefebvre não se declarou Papa, mas suas ações (vestir branco, ordenar bispos, criar estrutura paralela) desafiaram a autoridade papal de forma prática. Para a Igreja, isso configura cisma; para seus seguidores, é um ato de fidelidade à tradição. A ambiguidade entre “resistência” e rebeldia permanece no centro do debate, tornando Dom Lefebvre uma figura polarizadora na história católica recente.

Deixe um comentário