Dissidência Tradicionalista – PARTE III

Continuação sobre a Dissidência Tradicionalista.
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PARTE III

A Reação Contra a Dissidência e as Disputas Externas – O Choque com o Tradicionalismo Oficial:

Enquanto a Dissidência Tradicionalista se expandia e ganhava novas ramificações, começou a enfrentar resistência não apenas internamente, mas também de setores do próprio tradicionalismo oficial. Os seguidores mais ortodoxos de René Guénon e Frithjof Schuon viam a dissidência com desconfiança, acusando-a de distorcer a tradição e de se afastar da verdadeira via iniciática. Os ataques vinham, principalmente, de membros ligados a ordens iniciáticas tradicionais, como algumas tariqas sufis e círculos guenonianos acadêmicos. Esses críticos apontavam que os dissidentes estavam se apropriando do discurso tradicionalista sem o devido compromisso com a iniciação legítima e com a cadeia de transmissão espiritual.

Além disso, houve momentos em que membros da dissidência entraram em conflito com setores do perenialismo estrito, especialmente aqueles ligados a instituições mais estabelecidas, como algumas editoras que detinham os direitos de publicação de autores tradicionalistas. Alguns dissidentes tentaram romper com esse domínio, publicando textos inéditos ou promovendo interpretações mais flexíveis das doutrinas tradicionais.

O Embate com o Conservadorismo Político:

Outro confronto significativo ocorreu com setores do conservadorismo político, que, em muitos casos, se aproximaram superficialmente das ideias tradicionalistas, mas sem compreender sua profundidade. Com a ascensão de movimentos políticos conservadores e reacionários, algumas figuras tentaram apropriar-se de conceitos guenonianos e evolianos para justificar suas agendas, muitas vezes de maneira simplificada ou distorcida. O conceito de “Tradição”, por exemplo, passou a ser usado de forma genérica, sem o devido embasamento metafísico.

Isso gerou atritos entre os dissidentes e esses grupos, pois muitos membros da dissidência rejeitavam tanto o liberalismo quanto o conservadorismo moderno, considerando-os duas faces do mesmo materialismo. Essa postura causou polêmica e levou a debates acalorados em redes sociais, blogs e conferências.

A Perseguição Midiática e Acadêmica:

À medida que a Dissidência Tradicionalista ganhava mais visibilidade, começou a atrair atenção negativa de setores da mídia e da academia. Alguns acadêmicos passaram a classificar a dissidência como um movimento extremista ou obscurantista, associando-a a tendências autoritárias ou anticientíficas. Em artigos e teses, estudiosos tentaram enquadrar os dissidentes dentro de categorias como “reacionários esotéricos” ou “neoperenialistas radicais”, frequentemente ignorando as nuances internas do movimento. Esse tipo de abordagem gerou descontentamento dentro da dissidência, pois muitos de seus membros se viam como intelectuais e buscavam um estudo sério das tradições espirituais.

Em alguns casos, a pressão acadêmica e midiática resultou na exclusão de dissidentes de eventos e debates públicos, além de dificuldades para a publicação de seus trabalhos em revistas e editoras convencionais. Isso reforçou ainda mais o isolamento do movimento e a percepção de que era necessário criar estruturas próprias para divulgar suas ideias.

O Papel da Dissidência na Cultura e no Pensamento Contemporâneo:

Apesar das críticas externas, a Dissidência Tradicionalista conseguiu influenciar setores da cultura e do pensamento contemporâneo. Algumas publicações começaram a dialogar com movimentos filosóficos alternativos, enquanto autores dissidentes foram convidados para debates sobre modernidade, espiritualidade e crise civilizacional. Além disso, houve tentativas de estabelecer diálogos com outros movimentos intelectuais, como o realismo metafísico, o conservadorismo cultural não político e certas correntes do pós-tradicionalismo, que buscavam manter a essência do pensamento tradicionalista sem a rigidez de suas formas institucionais.

A Reconfiguração da Dissidência e o Surgimento de Novas Correntes – O Cisma Interno e a Formação de Escolas:

Diante das pressões externas e dos conflitos internos, a Dissidência Tradicionalista passou por uma reconfiguração que resultou na formação de novas escolas e tendências dentro do pensamento tradicionalista dissidente. O embate entre os perenialistas estritos, os evolianos ativistas e os sincretistas já havia gerado tensões, mas, com o passar do tempo, alguns grupos se consolidaram como linhagens relativamente autônomas.

Entre os principais desdobramentos, podemos destacar:

1. A Escola Perenialista Rigorosa – Defendia a necessidade de iniciação formal e rejeitava qualquer tentativa de adaptação ou sincretismo. Seus membros mantinham um estudo estritamente guenoniano e condenavam desvios modernistas dentro da dissidência.

2. O Evolianismo Revolucionário – Inspirado na “via heroica” de Evola, esse grupo via o tradicionalismo como uma base para ação política e cultural. Alguns membros flertavam com o conceito de “guerrilha metapolítica”, tentando influenciar setores da sociedade a partir de uma visão aristocrática e hierárquica.

3. Os Sincretistas Herméticos – Exploravam a interseção entre o tradicionalismo e outras formas de espiritualidade, como o hermetismo, o neoplatonismo e a gnose cristã. Apesar de criticados pelos perenialistas ortodoxos, esses dissidentes argumentavam que estavam resgatando a essência esotérica da tradição.

4. O Pós-Tradicionalismo – Uma corrente mais recente, que questionava a viabilidade do tradicionalismo clássico no mundo contemporâneo. Seus membros tentavam reinterpretar os ensinamentos de Guénon e Evola à luz das transformações culturais e tecnológicas do século XXI.

Essas novas correntes passaram a disputar espaços dentro da dissidência, gerando tanto colaborações quanto novos atritos.

O Impacto da Dissidência no Brasil e no Mundo:

Embora a Dissidência Tradicionalista tenha surgido de debates essencialmente europeus, seu impacto não ficou restrito a esse contexto. No Brasil, o movimento ganhou força por meio de editoras independentes, grupos de estudos e fóruns digitais que discutiam a crise da modernidade sob uma perspectiva tradicionalista.

Além disso, algumas figuras brasileiras ligadas ao tradicionalismo tentaram criar pontes entre a dissidência e o pensamento conservador local. Esse processo, no entanto, não foi uniforme: enquanto alguns tentavam manter a pureza doutrinária do guenonismo, outros estavam mais interessados na aplicabilidade prática das ideias de Evola e Guénon no cenário político e social.

Fora do Brasil, a dissidência também encontrou eco em países como a Rússia e a Itália, onde o tradicionalismo se misturou a movimentos políticos e intelectuais locais. A influência de Aleksandr Dugin, por exemplo, gerou debates sobre a possibilidade de um tradicionalismo geopolítico, enquanto na Itália certas vertentes evolianas se aproximaram de grupos ligados ao pensamento alternativo de direita.

A Dissidência no Século XXI: Uma Nova Tradição ou um Movimento em Declínio?

À medida que o século XXI avança, a Dissidência Tradicionalista se vê diante de uma questão crucial: ela pode se tornar uma nova tradição legítima ou está fadada à fragmentação e ao esquecimento?

Alguns estudiosos argumentam que a dissidência representa um esforço válido de adaptação do tradicionalismo às novas realidades, sendo uma resposta inevitável à crise espiritual do mundo moderno. Outros, no entanto, veem nela um fenômeno transitório, marcado por disputas internas que impediram sua consolidação como um verdadeiro movimento coeso.

A Dissidência e a Busca por uma Nova Tradição – A Tentativa de Reconstrução Iniciática:

Diante das dificuldades impostas pela fragmentação interna e pelas críticas externas, alguns setores da Dissidência Tradicionalista passaram a buscar formas de reconstruir a tradição sem depender exclusivamente das vias iniciáticas tradicionais. Essa busca gerou tentativas de criação de novas linhagens espirituais, algumas inspiradas nas antigas escolas de mistérios e outras baseadas em sínteses modernas entre diferentes tradições esotéricas.

Entre essas tentativas, destacaram-se:

1. A recriação de estruturas iniciáticas a partir de estudos comparados entre o sufismo, o hermetismo e a cabala. Alguns grupos dissidentes tentaram estabelecer um “tradicionalismo esotérico” independente, sem vínculo com instituições já estabelecidas.

2. A exploração de caminhos alternativos como o estudo aprofundado do neoplatonismo e do esoterismo cristão, buscando reviver formas de iniciação consideradas perdidas.

3. A valorização da experiência direta, inspirada na via evoliana, enfatizando a realização espiritual individual sem a necessidade de uma linhagem formal.

No entanto, essas tentativas enfrentaram dificuldades. Os tradicionalistas mais rigorosos rejeitavam qualquer tentativa de recriação de uma tradição, argumentando que a verdadeira iniciação só pode ser recebida de uma cadeia ininterrupta de transmissão espiritual. Isso levou a novas rupturas dentro da dissidência, dividindo ainda mais os grupos que buscavam soluções alternativas.

A Dissidência e a Tecnologia: Um Novo Caminho?

Um dos fatores inesperados na evolução da Dissidência Tradicionalista foi a interação com a tecnologia. Se, por um lado, o tradicionalismo sempre se colocou em oposição ao mundo moderno, por outro, os dissidentes passaram a utilizar ferramentas digitais para difundir seus estudos e criar redes de contato.

Os fóruns online, blogs e canais de vídeo se tornaram espaços importantes para o desenvolvimento do pensamento dissidente. Isso gerou novas formas de interação, permitindo o surgimento de comunidades globais que compartilhavam textos, traduções e debates sobre a tradição.

Contudo, essa digitalização trouxe desafios. Alguns membros da dissidência alertavam para o risco de um tradicionalismo superficial, reduzido a discussões acadêmicas ou a meros debates online sem impacto real na vida espiritual dos indivíduos. Outros, por sua vez, argumentavam que a tecnologia poderia ser usada estrategicamente para conectar aqueles que buscavam uma tradição autêntica, mesmo em um mundo onde as vias iniciáticas estavam cada vez mais inacessíveis.

Além da já mencionada digitalização dos debates e da criação de redes virtuais, observou-se o surgimento de correntes esotéricas tecnocráticas que buscaram reinterpretar a tradição à luz dos desafios e das oportunidades do mundo contemporâneo. Um exemplo emblemático é o que alguns chamam de “Iluminismo Das Travas” – uma vertente do Dark Enlightenment, também conhecida pelo acrônimo NRx – , que une, de maneira singular, os preceitos do perenialismo reformulado à crítica aguda da modernidade e à defesa de uma hierarquia tecnocrática.

Essa corrente encontra suas raízes em uma comunidade informal de blogueiros e teóricos políticos que, desde os anos 2000, têm utilizado a internet como espaço para difundir ideias contrárias à democracia liberal e ao que consideram o declínio dos valores tradicionais. Nesse contexto, figuras como Steve Sailer atuaram como precursores contemporâneos, influenciados por pensadores como Thomas Carlyle e Julius Evola, articulando críticas que antecipavam os contornos dessa nova visão.

A consolidação das ideias que viriam a caracterizar o “Iluminismo Das Travas” ganhou fôlego com Curtis Yarvin, o engenheiro de software que, em 2007 e 2008, publicou seus textos sob o pseudônimo de Mencius Moldbug. Yarvin propôs uma crítica incisiva ao sistema político vigente, dando origem ao que ficou conhecido como “Iluminismo Negro”. Posteriormente, o filósofo Nick Land expandiu essas teses e, em seu ensaio homônimo, ajudou a difundir uma estética que mesclava a rejeição ao igualitarismo com a exaltação de uma ordem hierárquica – uma ordem que, para os dissidentes tecnocráticos, poderia ser reconectada aos mistérios ancestrais através de uma abordagem moderna.

O impacto dessas ideias ultrapassou os limites dos círculos virtuais. Vários nomes proeminentes tanto no ambiente empresarial quanto na esfera política passaram a expressar admiração por essas correntes. O capitalista de risco Peter Thiel, por exemplo, chegou a descrever Yarvin como sua “conexão mais importante”, reforçando o elo entre o mundo do Vale do Silício e essas propostas de reestruturação social. Do mesmo modo, o estrategista político Steve Bannon, o vice-presidente dos EUA JD Vance e Michael Anton – este último tendo exercido papel relevante no Departamento de Estado durante a segunda presidência de Trump – demonstraram publicamente que as ideias articuladas por Yarvin possuíam ressonância prática e ideológica.

A influência das teorias tecnocráticas esotéricas foi posta em evidência em janeiro de 2025, quando Curtis Yarvin compareceu a uma gala inaugural de Trump em Washington. Conforme noticiado pelo Politico, sua presença como “convidado informal de honra” foi interpretada como um sinal de sua “influência descomunal sobre a direita trumpiana”, simbolizando a convergência entre os debates digitais e as altas esferas do poder político.

Ao integrar a tecnologia como meio e metáfora, o “Iluminismo Das Travas” representa uma tentativa ousada de resgatar uma tradição espiritual e hierárquica, reinterpretada para um contexto em que as ferramentas digitais se tornam veículos de transformação cultural e política. Essa abordagem possibilita a criação de comunidades globais que, conectadas por redes virtuais, veem na modernidade não um agente de ruptura, mas um caminho para a redescoberta dos mistérios ancestrais. Assim, o movimento reafirma a tese de que a tecnologia, longe de ser inimiga da tradição, pode servir de ponte para uma nova era de iniciação e de reconfiguração dos valores espirituais.

Em última análise, essa fusão entre o esoterismo tradicional e as práticas tecnocráticas contemporâneas ilustra a complexa dinâmica interna da Dissidência Tradicionalista. Através da digitalização e da adaptação aos novos tempos, correntes como o “Iluminismo Das Travas” não apenas ampliam o alcance do pensamento dissidente, mas também instigam uma reflexão profunda sobre os rumos da modernidade e sobre a possibilidade de reconstruir uma tradição capaz de dialogar com os desafios do século XXI.

A Influência da Dissidência no Pensamento Contemporâneo:

Apesar de todas as disputas e desafios, a Dissidência Tradicionalista conseguiu deixar sua marca em diversas áreas do pensamento contemporâneo. Suas críticas à modernidade e à secularização influenciaram setores do conservadorismo cultural, da filosofia política e até mesmo do movimento neorreligioso.

Algumas ideias dissidentes começaram a ser estudadas dentro da academia, especialmente em áreas como filosofia da religião e estudos sobre o esoterismo ocidental. Embora muitas vezes vistas com desconfiança, essas investigações ajudaram a dar uma nova visibilidade ao pensamento tradicionalista e às suas ramificações.

Nos próximos capítulos, veremos como a dissidência enfrentou seus últimos desafios, ampliar a análise do modelo que seguiu e a forma que ela se adaptou (ou não) às transformações do século XXI.

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