Dissidência Tradicionalista – PARTE II

Continuando – Sobre a Dissidência Tradicionalista.
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PARTE II

As Divergências Internas e o Pluralismo Tradicionalista – O Crescimento da Dissidência e o Surgimento de Facções:

À medida que a Dissidência Tradicionalista se consolidava, novas tensões começaram a emergir. O próprio crescimento do movimento trouxe consigo uma diversidade de perspectivas que, com o tempo, levaria a inevitáveis rupturas. Enquanto alguns participantes se inclinavam para uma abordagem mais acadêmica e filosófica, outros adotavam um viés mais militante, buscando uma intervenção direta na cultura e até mesmo na política.

As divergências giravam em torno de questões centrais, como a relação entre espiritualidade e política, a interpretação da obra de Julius Evola e René Guénon, e o papel das organizações iniciáticas no mundo contemporâneo. Embora houvesse um consenso geral sobre a decadência do mundo moderno, cada grupo dentro da dissidência propunha uma resposta diferente para esse problema.

As Três Correntes Principais:

Com o tempo, a Dissidência Tradicionalista se fragmentou em três grandes tendências:

1. Os Perenialistas Estritos – Este grupo permanecia mais fiel à visão de René Guénon e Frithjof Schuon, defendendo uma abordagem contemplativa e espiritual da tradição. Para eles, qualquer envolvimento político era visto como uma distração ou mesmo um desvio da busca pelo conhecimento metafísico e pela iniciação legítima. Esse grupo manteve laços com círculos sufis e védicos e enfatizava a necessidade de uma filiação tradicional autêntica.

2. Os Evolianos Ativistas – Inspirados na obra de Julius Evola, estes dissidentes viam a modernidade como um campo de batalha e defendiam uma postura mais combativa. Diferente dos perenialistas estritos, acreditavam na possibilidade de uma ação transformadora dentro da sociedade, mesmo que em pequena escala. Eles se aproximavam da ideia de uma “revolta aristocrática” e estavam mais dispostos a interagir com certos movimentos políticos que refletissem seus princípios.

3. Os Sincretistas e Experimentadores – Esta vertente reunia indivíduos que transitavam entre diferentes escolas de pensamento, incorporando elementos do esoterismo ocidental, do neoplatonismo e até mesmo de tradições não diretamente ligadas ao tradicionalismo. Sua abordagem era mais aberta e experimental, o que gerava atritos com os grupos mais ortodoxos.

Essas três correntes não estavam rigidamente separadas, e havia indivíduos que transitavam entre elas. No entanto, as diferenças tornaram-se mais acentuadas à medida que a dissidência crescia e cada facção começava a desenvolver suas próprias iniciativas, publicações e eventos.

O Debate sobre a Política:

Uma das discussões mais acaloradas dentro da dissidência dizia respeito à relação com a política. Enquanto os evolianos ativistas acreditavam que era possível influenciar a sociedade por meio da política e da cultura, os perenialistas estritos consideravam isso um erro, argumentando que qualquer envolvimento com o mundo profano levaria à corrupção da tradição.

Essa divergência ficou evidente nos Encontros Evolianos, onde debates sobre temas como a “revolução conservadora” e a viabilidade de uma aristocracia espiritual geravam discussões intensas. Alguns defendiam uma ação cultural mais incisiva, enquanto outros alertavam para os perigos de se misturar com as disputas políticas mundanas.

As Tensões entre os Grupos:

Com o tempo, as diferenças entre essas correntes se tornaram mais visíveis, levando a conflitos internos. Acusações de desvio doutrinário, sectarismo e até mesmo disputas pessoais começaram a surgir. Em alguns casos, houve rupturas definitivas, com grupos se distanciando e criando suas próprias redes de contato.

Ainda assim, apesar das tensões, a Dissidência Tradicionalista continuou a crescer e a se diversificar. Se por um lado as divergências geraram conflitos, por outro também permitiram que novas perspectivas fossem exploradas, enriquecendo o debate e garantindo que o movimento não se tornasse uma doutrina rígida e monolítica.

Publicações e a Disseminação das Ideias Tradicionalistas – O Papel das Editoras Independentes:

Com o crescimento da Dissidência Tradicionalista, a necessidade de material bibliográfico tornou-se cada vez mais evidente. Embora autores como René Guénon e Julius Evola  algumas obras publicadas no Brasil, muitas edições eram raras ou esgotadas, e textos fundamentais permaneciam inacessíveis em português. Diante disso, editoras independentes assumiram um papel crucial:

1. Editora Austral: Junto ao IRGET, de Luiz Pontual, uma das pioneiras na publicação de obras de Evola e perenialistas, consolidando-se como referência inicial para o movimento.

2. Estrela da Manhã: Sob liderança de Marcelo Cipolla (padrasto e sócio de Luiz Gonzaga de Carvalho Neto; padrasto e sogro de Tales de Carvalho), focou em Guénon, Titus Burckhardt e Ramana Maharshi. A editora também abrigou tradutores como Marcos Vinicius Monteiro, professor do ICLS (Instituto Cultural Lux e Sapiência), e Ana Cipolla (Proprietária do ICLS, esposa de Tales de Carvalho e filha de Marcelo), que traduziu obras new age como Princípios de Vida Pleiadianos.

3. Bismilah: Selo da Estrela da Manhã dedicado ao esoterismo islâmico e sufismo, atraindo perenialistas estritos. 

Nota sobre Relações e Divergências:

Apesar dos vínculos familiares entre membros da editora e Olavo de Carvalho, é crucial destacar que seus filhos do primeiro casamento não seguiram sua orientação espiritual. Essa distinção é vital para evitar equívocos: o ICLS não é uma continuação do trabalho de Olavo, mas sim um espaço com metafísica e política divergentes.

Estratégias Editoriais e Tensões:

A Estrela da Manhã adotou uma estratégia similar à de iniciativas como a Octopus (do Idries Shah), que publicou Gerald Gardner, pai do movimento Wicca. Marcelo Cipolla, tradutor da Martins Fontes e Pensamento/Cultrix, facilitou acesso a obras místicas em canais populares, como supermercados. Essa abordagem, embora pragmática, gerou críticas por associar o tradicionalismo a correntes ecléticas. 

Traduções e Conteúdos Paralelos:

Além das editoras, membros da dissidência traduziram obras independentemente, compartilhando PDFs e textos em grupos fechados. Victor Bruno, autor de um livro sobre Guénon pela Danúbio Editora (que também publicou o evoliano César Ranquetat), exemplifica essa dinâmica de difícil compreensão, até mesmo para alunos do Olavo de Carvalho – mesmo sendo crítico de Olavo de Carvalho, ganhou certo espaço dentro do olavismo, pois Victor Bruno começou, assim como outros dissidentes, aluno do Olavo de Carvalho e acabou sendo atraído pela mística perenialista.

Entre os textos mais influentes que passaram por esse processo de tradução estavam:
– “O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos” (Guénon): Crítica à materialização da modernidade. 
– “Revolta contra o Mundo Moderno” (Evola): Base para a resistência aristocrática. 
– Obras de Frithjof Schuon e Ananda Coomaraswamy (este último ligado à FSSPX, mas afastado por Dom Williamson, mesmo Williamson que negou conhecer o perenialismo em entrevista antes de falecer (?)).

Além das traduções de livros, também surgiram traduções de artigos e ensaios que circulavam em blogs e fóruns, ajudando a consolidar um repertório teórico mais amplo dentro da dissidência.

A Importância das Traduções:

A tradução de ts tradicionalistas foi um dos esforços mais significativos da dissidência. Além das editoras, alguns membros começaram a traduzir obras de forma independente, compartilhando PDFs e trechos comentados em grupos fechados. Esse trabalho foi fundamental para a difusão do pensamento tradicionalista, permitindo que novos estudiosos tivessem acesso direto às fontes primárias.

Entre os textos mais influentes que passaram por esse processo de tradução estavam:

“O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos” – Obra essencial de Guénon que critica a modernidade e o materialismo.

“Revolta contra o Mundo Moderno” – Livro central de Evola, que apresenta a ideia de uma aristocracia espiritual como forma de resistência ao declínio da civilização.

Textos de Frithjof Schuon e Ananda Coomaraswamy (ex professor da FSSPX, afastado por Dom Williamson a mando de Dom Marcel Lefevbre) –

Revistas e Jornais Tradicionalistas:

Outro passo importante na disseminação das ideias foi a criação de revistas e jornais digitalizados. Publicações como “Axe Tradicional” e “Aurora Perenialista” reuniam artigos escritos por membros da dissidência, abordando desde estudos aprofundados sobre a tradição até críticas diretas ao mundo moderno e suas ideologias.

A pluralidade de visões dentro da dissidência também se refletia nessas publicações. Enquanto algumas revistas mantinham uma abordagem mais acadêmica e filosófica, outras adotavam um tom mais militante, aproximando-se das correntes evolianas ativistas. Essa diversidade garantiu que diferentes perspectivas dentro do tradicionalismo encontrassem espaço para se expressar.

A grande projeção nas Redes Sociais:

Com o avanço das redes sociais, a Dissidência Tradicionalista encontrou um novo meio de difusão. Twitter, Telegram e YouTube tornaram-se ferramentas essenciais para divulgar ideias, organizar debates e atrair novos interessados. Alguns membros da dissidência passaram a produzir vídeos comentando obras tradicionalistas, enquanto outros criavam perfis dedicados à crítica cultural e à análise simbólica de fenômenos contemporâneos.

Se, por um lado, essa presença digital ampliou o alcance do movimento, por outro, trouxe novos desafios. A superficialidade das redes sociais muitas vezes levava à deturpação das ideias tradicionalistas, resultando em simplificações exageradas ou apropriações inadequadas. Além disso, a exposição pública gerou atritos com setores do conservadorismo político e da academia, que passaram a ver a dissidência como um grupo reacionário ou esotérico demais.

O Futuro da Disseminação Tradicionalista:

Apesar dos desafios, as publicações continuaram sendo um pilar central da dissidência. A busca por traduções mais rigorosas, o incentivo à pesquisa e a criação de novos espaços de debate garantiram que o movimento permanecesse vivo e em constante evolução.

O Conflito entre Ortodoxia e Experimentação – A Tensão entre a Fidelidade Doutrinária e a Adaptação

À medida que a Dissidência Tradicionalista se expandia, surgia um dilema inevitável: até que ponto era possível adaptar as ideias de Guénon, Evola e outros tradicionalistas ao contexto contemporâneo sem comprometer sua essência? Essa questão levou a um embate entre aqueles que defendiam uma fidelidade estrita às fontes originais e aqueles que viam necessidade de reinterpretar e atualizar certos conceitos.

Os perenialistas estritos, por exemplo, argumentavam que qualquer tentativa de “modernizar” o tradicionalismo era um erro. Para eles, a tradição só poderia ser acessada por meio das formas iniciáticas legítimas, e qualquer tentativa de inovação resultava em um desvio doutrinário. Em contraste, os evolianos ativistas e os sincretistas estavam mais abertos a adaptações, buscando formas de aplicar os ensinamentos tradicionais à realidade contemporânea. Essa tensão ficou evidente em debates internos, especialmente nos Encontros Evolianos e nos fóruns digitais, onde se discutia a validade de certas práticas e interpretações.

O Debate sobre Iniciação e Linhagem:

Um dos temas mais sensíveis dentro da dissidência era a questão da iniciação legítima. René Guénon defendia que apenas tradições vivas e ininterruptas poderiam oferecer uma verdadeira transmissão espiritual. Isso gerava um problema para muitos membros da dissidência, já que várias das tradições tradicionais estavam enfraquecidas ou inacessíveis.

Enquanto alguns tentavam se conectar com grupos sufi, védicos ou taoístas para buscar uma iniciação autêntica, outros questionavam a necessidade de uma filiação formal, argumentando que era possível seguir o caminho da “via heroica” de Evola, na qual o indivíduo busca a realização espiritual sem depender de uma linhagem iniciática reconhecida.

Esse debate levou a divisões internas, com acusações mútuas de sectarismo e falta de rigor. Alguns perenialistas viam os evolianos ativistas como “esoteristas autodidatas” sem real conexão com a tradição, enquanto os ativistas acusavam os perenialistas de serem excessivamente acadêmicos e passivos diante da decadência da civilização moderna.

Os Sincretistas e a Experimentação Esotérica:

Dentro desse panorama, um terceiro grupo emergiu – os sincretistas, que exploravam múltiplas influências, misturando elementos do esoterismo ocidental, do hermetismo, da alquimia e de outras correntes espirituais. Esses membros da dissidência buscavam novas formas de espiritualidade, reinterpretando os ensinamentos tradicionalistas e incorporando práticas que, para os ortodoxos, eram questionáveis.

Alguns, por exemplo, tentaram estabelecer pontes entre o tradicionalismo e correntes neopagãs, enquanto outros investigavam conexões entre Guénon e a mística cristã ortodoxa. Essas experimentações foram vistas com desconfiança pelos mais conservadores, que acusavam os sincretistas de diluir o tradicionalismo em um ecletismo sem rigor.

A Fragmentação da Dissidência:

Com o tempo, essas tensões se intensificaram, levando a novas rupturas dentro da dissidência. Certos grupos passaram a se isolar, focando exclusivamente em suas próprias interpretações e recusando qualquer diálogo com vertentes divergentes. Por outro lado, algumas dessas disputas geraram reflexões mais profundas e estimularam a produção de novos textos e debates.

Nos próximos capítulos, veremos como essas divergências influenciaram o futuro da dissidência, resultando na consolidação de grupos distintos e na busca por novos caminhos dentro do pensamento tradicionalista.

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