Dissidência Tradicionalista – PARTE I

Vou começar a contar uma historinha pra vocês. Essa história vai demonstrar as ligações entre grupos aparentemente não conectados, mas que proporcionará, aos mais incautos e desavisados, um panorama sobre a ação ideológica que levou ao momento atual na política brasileira, principalmente amparada no anti-olavismo histérico, resposta à sua firmeza em se manter na Igreja Católica. Esse movimento tem ramificações internacionais, principalmente ligadas ao filósofo Aleksandr Dugin.

1. Dissidência Tradicionalista (Perenialistas em geral, como Evolianos, Guenonianos) ;
2. Resistência Tradicionalista Católica (alguns cismáticos e criptognósticos).

Serão várias publicações sendo a primeira sobre o movimento de Dissidência Tradicionalista. Evitarei citar nomes diretamente, mas alguns é impossível não citar.
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PARTE I

Entre o Esotérico e o Político:

Na contemporaneidade, o surgimento e a consolidação da Dissidência Tradicionalista no Brasil se apresentam como um fenômeno multifacetado e paradoxal, que transcende as fronteiras entre o esoterismo e a política. Este movimento, alicerçado em leituras perenialistas e em críticas contundentes à modernidade – particularmente por meio das obras de René Guénon, Frithjof Schuon e Julius Evola – se materializou inicialmente em comunidades virtuais como o “Olavo de Carvalho do B” e a Dubê, no Orkut, grupos CRÍTICOS ao Olavo de Carvalho. Esses espaços permitiram a emergência de uma rede de debates intensos e trocas de ideias que desafiavam o consenso hegemônico, propondo uma visão alternativa da tradição espiritual e da ordem social. Tal ambiente, repleto de interseções e tensões, serviu como o berço onde os dissidentes passaram a reimaginar o papel do sagrado em um mundo dominado pelo materialismo.

À medida que essas trocas se expandiram e se transpussem para ambientes acadêmicos e editoriais – por meio dos Encontros Evolianos, da Editora Austral e de diversas iniciativas de tradução e publicação – o movimento assumiu também uma dimensão política incisiva, sem abandonar suas raízes místicas. Articuladores foram fundamentais para conectar os debates online a fóruns universitários e espaços de diálogo mais formal, onde se discutiam, lado a lado, temas de geopolítica, crítica ao capitalismo e propostas alternativas de organização social. Essa convergência – que abrange desde a corrente anti-olavista, passando pelo evolianismo nacional-bolchevique e até vertentes de militância socialista dissidente – configura a Dissidência Tradicionalista como uma construção coletiva dinâmica, em que o misticismo e o pragmatismo político, não por acaso nome do site do membro do MBL, Luciano Ayan (fomentador do inquérito das Fake News que descambaram na atual denúncia do PGR e Opus Dei) se entrelaçam para oferecer novas perspectivas de resistência e renovação cultural.

O Surgimento das Comunidades Virtuais e o Debate Inicial:

Nas primeiras décadas da Internet, sobretudo a partir dos anos 2000, o ambiente digital se transformou no espaço privilegiado para a emergência de debates dissidentes. Em meio a uma nova era de comunicação, comunidades virtuais surgiram como os primeiros pontos de encontro entre os que buscavam repensar a modernidade – e, sobretudo, reconectar o sagrado e o esotérico com a crítica política. Esses grupos não apenas articulavam críticas à hegemonia cultural e política, mas também se tornavam verdadeiros laboratórios de ideias, onde referências clássicas, como as obras de René Guénon, Frithjof Schuon e Julius Evola, eram reinterpretadas à luz dos desafios contemporâneos.

Os Primeiros Espaços de Convergência:

Fóruns e comunidades em redes como o Orkut foram fundamentais para essa consolidação. A comunidade “Olavo de Carvalho do B”, por exemplo, reunia entusiastas que, inspirados tanto pela retórica crítica de Olavo quanto pelas leituras perenialistas, compartilhavam reflexões que iam além do simples debate ideológico.

Esses espaços, marcados pela informalidade e pela intensa troca de mensagens, permitiram que as ideias tradicionalistas – originalmente relegadas à esfera esotérica – penetrassem no debate público, desafiando o consenso hegemônico vigente. Esses primeiros encontros foram essenciais para moldar o imaginário dissidente, articulando uma visão que unia o misticismo e a crítica ao modernismo.

A Influência dos Autores Perenialistas:

O embasamento teórico desses debates partia, em grande parte, da leitura de autores como Guénon, que criticava a materialização da civilização ocidental e exaltava uma tradição de conhecimento que se origina em tempos ancestrais. Schuon e Evola também foram referências indispensáveis, cada qual aportando sua visão sobre a decadência moderna e a necessidade de uma “Grande Síntese” que ultrapassasse as dicotomias políticas convencionais. Esses ensinamentos, longe de se apresentarem como meros dogmas, incentivavam uma postura de crítica radical – que questionava, por exemplo, a legitimidade do consenso liberal e a ideia de progresso linear. A proposta era, sobretudo, resgatar uma dimensão transcendental que se perdera com o avanço desenfreado do materialismo, como enfatizava o próprio Guénon.

Conectando o Esotérico ao Político:

A transição dos debates virtuais para encontros presenciais foi gradual. Inicialmente, as comunidades virtuais funcionavam como fóruns de troca de ideias e de partilha de textos e reflexões; mas com o tempo, essa rede se expandiu e deu origem a eventos que reuniam acadêmicos, esoteristas e militantes – os chamados “Encontros Evolianos”. Esse movimento, articulado por figuras como Uriel Araujo e Dídimo Matos, foi determinante para transformar o debate digital em uma prática mais sistematizada e, ao mesmo tempo, politizada. Assim, o que começou como uma reunião de entusiastas em fóruns do Orkut logo se expandiu para uma rede de contatos que operava também no campo universitário, ampliando o alcance do Tradicionalismo dissidente e consolidando uma agenda que questionava os fundamentos da modernidade.

Reflexões sobre o Ambiente Digital:

Nas comunidades online, o caráter descentralizado e a liberdade de expressão permitiram um cruzamento inédito entre ideias de diferentes matrizes – de militantes do “anti-olavismo” a jovens esotéricos que buscavam a “Grande Síntese”. Esse cenário pluriforme, embora permeado por tensões internas, mostrou desde cedo que a dissidência não se restringia a um único espectro ideológico. Ao contrário, ela se formava por meio de uma rede orgânica, na qual a crítica ao materialismo e à dominação cultural era articulada a partir de leituras tradicionais e de uma busca sincera pelo resgate do sagrado.

O Impacto nos Debates Virtuais:

Nas comunidades do Orkut e nos primeiros fóruns dedicados ao tradicionalismo, essas tensões se manifestavam em discussões acaloradas. A influência olavista ainda era forte, mas, aos poucos, surgiam núcleos mais independentes que começavam a desenvolver uma leitura própria das obras perenialistas. Nomes como Uriel Araujo e Dídimo Matos foram fundamentais nesse processo, ao trazerem novas perspectivas e incentivarem a tradução e a publicação de textos inéditos no Brasil.

Além disso, a dissidência começou a se distanciar do tom combativo do olavismo e a buscar um caminho próprio, focado mais na reflexão filosófica e menos na disputa política imediata. Isso não significava um afastamento total da esfera política, mas sim uma tentativa de abordar os problemas contemporâneos a partir de um referencial mais profundo, que transcendia as lutas partidárias e ideológicas do momento.

Os Encontros Evolianos e a Estruturação da Dissidência – A Transição do Virtual para o Presencial:

Após anos de intensos debates em fóruns e comunidades online, a Dissidência Tradicionalista começou a dar seus primeiros passos no mundo físico. O desejo de aprofundar discussões sem as limitações dos espaços virtuais levou à organização dos chamados Encontros Evolianos, eventos que reuniam intelectuais, estudiosos e interessados no pensamento de Julius Evola, René Guénon e outros autores da tradição esotérica.

Dídimo Matos, Uriel Araujo e Maurício Oltramari foram algumas das figuras centrais nessa transição. Com a experiência adquirida na articulação de debates virtuais, esses nomes passaram a organizar encontros presenciais que tinham como objetivo consolidar uma rede mais estruturada de pensadores dissidentes. Os eventos ocorriam de maneira reservada, muitas vezes sem ampla divulgação, garantindo que apenas os realmente interessados tivessem acesso às discussões.

Os Encontros Evolianos representaram um marco importante porque permitiram que a dissidência se tornasse um movimento concreto, com uma base de participantes que ia além das interações digitais. Foi nesses encontros que muitas colaborações futuras foram estabelecidas, incluindo traduções de obras, criação de editoras independentes e articulações políticas.

As Temáticas dos Encontros:

Os temas abordados nos Encontros Evolianos eram variados, mas giravam sempre em torno das questões centrais do tradicionalismo: a crítica à modernidade, a necessidade de uma aristocracia espiritual e a busca de um caminho para restaurar a tradição em um mundo dominado pelo materialismo.

Entre os principais temas debatidos estavam:

*A crítica ao mundo moderno de Guénon e Evola – Comparação entre suas visões e suas possíveis aplicações no contexto brasileiro.

*O conceito de “Revolta contra o Mundo Moderno” – A ideia de Evola sobre a resistência de uma elite espiritual contra o declínio civilizacional.

*A relação entre tradicionalismo e política – Discussões sobre se era possível (ou desejável) intervir no cenário político a partir de uma perspectiva tradicionalista.

*As influências sufis, védicas e herméticas no pensamento tradicionalista – Abordagens comparativas entre diferentes correntes esotéricas e seus pontos de convergência.

*A questão da iniciação e da transmissão da tradição – Reflexões sobre a possibilidade de uma prática espiritual autêntica no contexto contemporâneo.

Além das palestras e discussões, os encontros também serviam para a troca de livros e materiais de difícil acesso, muitas vezes importados ou traduzidos pelos próprios membros. Esse intercâmbio foi fundamental para a formação de uma biblioteca comum entre os dissidentes, permitindo que o conhecimento se espalhasse de forma mais ampla.

A Formação de uma Rede Intelectual:

Com o passar do tempo, os Encontros Evolianos começaram a atrair não apenas indivíduos isolados, mas também grupos que já tinham suas próprias iniciativas. Algumas editoras independentes passaram a colaborar com os dissidentes, traduzindo e publicando livros que dificilmente encontrariam espaço no mercado editorial convencional.

A Editora Austral, por exemplo, teve um papel importante ao trazer ao público brasileiro textos inéditos de Evola, Guénon e outros pensadores da tradição. Outras editoras menores, como a Estrela da Manhã e a Bismilah, também se envolveram em projetos de publicação ligados à dissidência.

Além das editoras, surgiram colaborações com acadêmicos que, embora não se identificassem totalmente com a dissidência, viam nela um fenômeno intelectual relevante. Isso levou a um diálogo produtivo entre os dissidentes e certas vertentes da filosofia e das ciências humanas, permitindo que suas ideias fossem discutidas em um nível mais sofisticado.

O Papel dos Encontros na Consolidação da Dissidência:

Os Encontros Evolianos marcaram uma nova fase da Dissidência Tradicionalista, dando-lhe uma estrutura mais concreta e organizada. A partir deles, a dissidência deixou de ser apenas um fenômeno de Internet para se tornar uma rede de contatos reais, com colaborações duradouras e projetos ambiciosos.

A partir desse momento, a dissidência começou a ter um impacto mais visível no cenário cultural e intelectual brasileiro. Se antes suas discussões estavam restritas a fóruns e blogs, agora elas começavam a se manifestar em livros, conferências e até mesmo em alguns espaços acadêmicos.
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Nos próximos capítulos, exploraremos como essa rede se expandiu ainda mais, levando à criação de novas iniciativas e ao aprofundamento das divergências internas que, mais tarde, levariam a novas cisões dentro da própria dissidência.

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