O Hobbit, o Bolseiro, o Louco – Uma mera especulação simbólica.



NO Senhor dos Anéis, Frodo aparentemente representa o Tolo/Louco, embora isso possa parecer chocante para muitas pessoas que se afeiçoaram à interpretação de que a história era estritamente cristã. Não fosse por esse viés interpretativo, de maneira alguma a obra de Tolkien teria tamanha aceitação nos círculos ocultistas. Tolkien, como bom estudioso dos mitos e sua simbologia, provavelmente teve contato com a mística cabalística (o Tarô é cabala).

Um livro onde é fácil perceber a semelhança da narrativa do Hobbits (Rabbits) com o Louco é o livro do Khalil Gibran, O Louco. O capítulo IV tem até uma referência do espantalho como o que Frodo para na frente, no filme do Senhor dos Anéis (Sociedade do Anel) no início da sua jornada. Pode ser associado ao espantalho dO Mágico de Oz, que desejava um cérebro. Huginn e Muninn, os corvos de Odin (mente e memória) podem ser simbolicamente associados. Também existem referências alquímicas fartas, como Gandalf (o Mago), que progride saindo do estado de nigredo para albedo, ou Saruman, que regride de albedo para o estado de “rabo de pavão”.

Já que entramos na alquimia, vamos aproveitar para fazer outra observação sobre a semelhança entre o Hobbit e o Louco. Alguns Hobbits, como Frodo estão relacionado ao conceito alquímico de “sopradores”, sendo representado como um “bolseiro”, assim como membros de sociedades estudantis (Burschenschafts, “bolseiros”). A carta do Tolo está ligada a imagem dos bolseiros (ele carrega uma pequena bolsa que o acompanha nas viagens). Na alquimia, bolseiro/soprador está ligado ao fole, aquela pequena bolsa de sopro que dá o ritmo, o “tom” do fogo. No francês antigo, essa bolsa era chamada “Fov” (assim como a carta Le Fov, le Fol, the Fool, o Louco/Tolo).

Na mitologia poética clássica, podemos claramente associar Odisseu. No começo da Ilíada, ele tenta enganar os gregos simulando loucura e termina a Odisséia em farrapos, esquecido, reconhecido apenas pela sua serva através de uma ferida na coxa (luta com javalis) e seu cão, Argos, como o lince/cão que rasga a roupa do Louco na representação do Tarô e revela a coxa do andarilho (Argos é o mesmo nome do ser com vários olhos que vigiava IO a mando de Hera e que foi transformado em pavão, lembram do estágio alquímico que já citei (?), mas aí é outra história e vamos perder o foco).

Para meus amigos Engenheiros Metalurgistas, os conceitos filosóficos dos trabalhos com metais são claramente perceptíveis na narrativa de Tolkien. Sobre os ferreiros, como Sauron, eu falei em outra postagem [1], mas vamos falar sobre o conceito científico/filosófico da arte da forja. Durante a história da humanidade, desde que os metais atrairam nossa atenção – o processamento, refino e identificação sempre foram importantes para nós. Todos os reis precisavam de um alquimista que garantisse a qualidade dos metais do tesouro real, sem citarca importância das ligas para instrumentos utilizados em guerras. Com o tempo e as necessidades da coroa, procurou-se a produção de ouro através do chumbo, para que os monarcas pudessem financiar os exércitos e mercenários nas suas campanhas expansionistas ou defensivas. Quem quiser entender os principais conceitos alquímicos, procure livros de química, física e ciências metalúrgicas antes de qualquer outra coisa. Com o passar dos séculos esses “secretários de finanças “ acabaram encontrando uma maneira mais fácil de obter a” pedra filosofal” das finanças – os títulos de dívida. A partir daí, uma confissão de dívida de um monarca se transformava em “ouro”, possibilitando a atividade mercantil, a criação dos bancos centrais e mercados de ativos e futuros, como num passe de mágica. Mas esses alquimistas não se dão por satisfeitos e já planejam a próxima fase – os ativos digitais (mas isso fica para depois).

Mas para ser um alquimista pleno, o sujeito tem que dominar não apenas o aspecto material da ciência, mas também, pelo menos, mais dois aspectos: o mental e o metafísico. Não conseguir alcançar a plenitude do conhecimento do bem, e do mal, torna o “iniciado” um mero soprador, um tolo, que ao abrir sua sacola, como Ulisses no começo de seu retorno a ilha de Itaca, libera os ventoa contrárioa que o empurram de volta ao começo de sua jornada.

Jung e Gurdjieff estudaram alquimia durante décadas e aplicaram vários conceitos aos estudos da mente. John Dee e Swedenborg aplicaram na metafísica. HP Blavatsky tentou unificar algums desses conceitos. Vários relatos de charlatanismo no meio não são acaso, mas regra. Não por acaso a New Age é baseada nesses pilares. Também é importante informar aos, pelo menos, 95% de iniciados na maçonaria que não fazem a menor ideia de quem é o seu Gadu, que a brotheragem, digo, irmandade maçônica está firmada, resumidamente, na mística judaica da Cabala, heresia cristã dos Catáros, mitologia greco-romana e egípcia. Quanto de Cabala e Tarô estão na maçonaria? 33 graus (32 +1 simbólico) estão relacionados a soma das 10 sephiroth (11 com a Daat, o conhecimento, representando uma falsa sephirah porque não é uma emanação independente como as outras dez, pois ela depende de Chokmah e Binah e também é considerada como a imagem de Tipareth – é o abismo, o caos aleatório do pensamento) somadas aos 22 arcanos maiores, que são as interações entre essas sephiroth. GADLU (Gadu em francês) está ligado aos arcanos G (gimel, arcano III) = Isis/Lúcifer; A (aleph, arcano I) = Mago ou Maçom com o posto de Mestre; D (Daleth, arcano IV), Realização; L (Lamed, arcano XII) morte voluntária, sacrifício; V (Vau, arcano VI) a Provação: O que significa: ISIS DÁ AO MAGO, A REALIZAÇÃO, ATRAVÉS DA MORTE NO JULGAMENTO. A morte do iniciado, na prova da categoria de Mestre, é, de fato, o sacramento supremo do Satanismo Maçônico, substituto macaqueado dos Sacramentos Católicos. A iniciação maçônica não passa de uma autorização para que Lúcifer atue na vida do iniciado.

Particularmente não tenho problemas em separar o mito da realidade. A questão, como bem delineou Eric Voegelin, é a insistência de alguns ideologos, como Aleksandr Dugin, de Imanentizar a Escatologia, ou seja, baseado na escatologia, nas ideologias, nos mitos, infringir a tentativa de antecipar o juízo final na Terra, controlando o fluxo da história para criar um reino terrestre onde os “maus” seriam punidos… Não acredita? Leia Noomaquia e veja a divisão dos ethos humanos baseados em divindades gregas tais como narrados por Camões, nOs Lusíadas.

[1] https://rascunhos.data.blog/2023/09/17/noomaquia-de-aleksandr-dugin-parte-ii/

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