
Na foto está Pepe Escobar, um eurasiano duginista que está influenciando “conservadores” tanto da direita quanto da esquerda, figura presente em seminários promovidos pela imprensa, como nos canais Brasil247, Jornal GGN do Nassif, além de influenciar movimentos como o Frente Sol da Pátria e Nova Resistência, e que provavelmente está articulado com o guru do PDT, Mangabeira Unger. Ele aparece na frente da escultura de aço inoxidável “Operário e Mulher Kolkhosiana” criada por Vera Múkhina em 1937 para a Exposição Mundial de Paris que, segundo a artista, foi inspirada na história dos tiranicidas Harmódio e Aristogíton (casal que seguia a relação social da Grécia Antiga conhecida como pederastia, assassinou um tirano persa e trouxe a democracia a Atenas) e que foi símbolos da URSS, passando a abrir todos os filmes soviéticos da Mosfilm. Vou concentrar-me nos “símbolos que realmente gritam” e que transcendem o comunismo soviético, onde a FOICE representa os camponeses que cultivavam o “ouro branco”, o algodão para tecelagem e o MARTELO é símbolo dos ferreiros, assim como o barrete frígio usado pelo deus ferreiro grego Hefesto.
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AS DEUSAS TECELÃS E OS DEUSES FERREIROS
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As tecelãs.
Na história recente, durante a revolução industrial, o processo de fiar e tecer tornou-se uma simbologia poderosa para a criação de nova ordem a partir do caos, definindo o destino humano.
E a força desta simbologia também manifesta sua influência na elaboração da moderna Teoria das Cordas, que se utiliza da imagética da fiação, descrevendo o tecido microscópico de que dizem ser feito nosso universo como multidimensional e ricamente urdido a partir de cordas que vibram sem cessar e, com sua vibração, introduzem o ritmo da vida no cosmos.
A ligação da tecelagem com os símbolos é muito interessante. O Culto da Ordem Palladina da maçonaria é inspirado na deusa Pallas, que é a deusa Athenas, a deusa tecelã, assim como Neite dos egípcios, as Moiras (existe a ligação das Moiras com alguns personagens da cultura, como os Três Mosqueteiros de Dumas e os 3 Hobbits que acompanham Frodo de Tolkien).
Athenas (Minerva, na mitologia romana) foi uma deusa presente na religiosidade dos gregos antigos, sendo representante da sabedoria. Os gregos também a tinham como a deusa da guerra, considerando o aspecto estratégico da guerra, e ainda a deusa dos ofícios, tendo ela uma série de habilidades, como a tecelagem. A ligação entre a aranha e a divindade tecelã está presente também na mitologia grega, na história de Aracne, a mortal que desafiou a deusa Athenas.
Em Roma, as Parcas eram deusas fiandeiras equivalentes das Moiras, que presidiam ao nascimento, casamento e morte e seus nomes eram Nona, Décima e Morta. O número de três, nove ou mais raramente, doze (como nas Valquírias), é associado a etapas temporais, como começo-meio-fim, passado-presente-futuro, nascimento-vida-morte.
As Moiras representavam a lei, que nem mesmo os deuses podiam transgredir sem colocar em perigoa ordem universal. Com o passar do tempo, foram descritas como uma tríade, personificando o destino individual: Cloto (a que fia) segurava o fuso e puxava o fio da vida; Láquesis (a que tira a sorte) enrolava o fio e sorteava o nome de quem ia morrer; Átropos (a inflexível) cortava o fio da vida.
O próprio Cosmos, segundo Mircea Eliade, é concebido como uma tessitura, uma enorme teia, a criação do mundo através dessa atividade sendo atribuída a uma Deusa, que se tornava assim a Senhora do Destino.
No Baixo Egito, Neite, também chamada Tehenut (lembra o palindromo do quadrado de SATOR, TENET), é a deusa protetora dos mortos: quem inventou o tecido (se converte em patrona dos tecedores) que oferece tanto às vendas, quanto o sudário aos mortos. Neite/Neith foi a criadora do mundo e mãe do deus sol, Ra. Isso faz dela mãe de todos os deuses. Seus símbolos são Escudo com duas flechas cruzadas, coroa vermelha, tear, vaca e seus atributos são de deusa da guerra, da caça e da tecelagem.
Na América pré colombiana, existe o mito da Pachamama, a Mãe Universal fincou seu imenso fuso verticalmente na terra recém criada, dele se desprendeu uma fibra de fio de algodão, com a qual traçou um círculo, declarando que esta seria a terra de seus filhos. Na mitologia nórdica o destino é decretado pelas Nornas, a deusa tríplice do destino é representada pela tríade das Nornes: Urdh, Verdandhi e Skuld, as tecelãs que fiam perto do poço de Urdh, entre as raízes daYggdrasil, a Árvore do Mundo. Na literatura inglesa, as Nornes são conhecidas como Weird Sisters (Irmãs Destino) e entre as deusas celtas as fiandeiras são Arianrhod, Badb, Bean Sidhe, Morrigane Scatach. As deusas eslavas do destino são as Rodjenice e as fiandeiras astecas são IxChel, Chalchiuhtlique e Mama Occlo. Na mitologia germânica, as Valquírias, em número de doze, encarnam o aspecto terrível da Fiandeira do Destino. Elas cantam enquanto tecem num tear espectral a morte dos guerreiros no campo de batalhas, tendo o sangue como matéria. Na tradição hindu, a deusa tecelã recebe o nome de Maya.
Durante a Guerra de Troia, Penélope encontrou no tear uma forma de adiar a escolha de um novo marido após a partida de Ulisses. Para ter controle do próprio destino, Penélope diz que só se casará novamente quando terminar a tapeçaria que está fazendo. Assim, ela tece de dia e desmancha à noite.
Ariadne. Filha do Rei Minos, Ariadne se apaixona por Teseu, um dos voluntários para derrotar o Minotauro. Para tentar salvá-lo dos perigos do labirinto onde o monstro metade homem metade touro vivia, ela entregou a Teseu um novelo de fio de ouro e o instruiu a desenrolá-lo em sua trajetória pelo labirinto, pois assim conseguiria encontrar o caminho de volta.
Existe também a história de Filomena, raptada e violentada por seu cunhado e que também corta a sualíngua para impedir que o delate, trancando-a numa torre. Mesmo prisioneira, a moça consegue tecer sua história e faz com que a tapeçaria chegue às mãos de sua irmã que, compreendendo a mensagem, consegue encontrá-la e buscar justiça.
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Os Ferreiros.
Embora exista uma vasta literatura sobre o simbolismo dos ferreiros, como em Ferreiros e Alquimistas de Mircea Eliade, ou no mito grego/romano de Hefesto/Vulcano, ou do personagem bíblico Tubalcaim, para falar sobre os ferreiros, vou utilizar a mitologia de J.R.R Tolkien através da história do Sauron, que transita simbolicamente entre várias dessas histórias.
Para resumir, pularemos para a Segunda Era, que se passou milhares de anos antes da formação da Sociedade do Anel, época em que um dos principais clãs de Elfos existentes eram os Noldor, que destacavam por serem ótimos artífices, que “avançavam sempre em engenho e conhecimento” e por causa dessas tradições, alguns Noldor cruzaram a Terra-média em busca de materiais preciosos e “souberam que o mithril fora descoberto em Moria” pelos Anões (criados pelo Valar Aulë, o ferreiro com quem Sauron aprendeu os segredos da forja) que habitavam a região das Montanhas Nevoentas. O Mithril era extremamente resistente e também muito raro e, por isso, a região de Moria acabou chamando tanto a atenção dos Elfos que eles criaram um novo reino élfico chamado Eregion bem perto das minas. E dentro desse reino dos Elfos, foi formado o Povo dos Joalheiros, que era uma irmandade feita por alguns dos maiores artífices da história, que como os livros definem “ultrapassaram em engenho todos os que algum dia dominaram esse ofício.”
Nessa época, o líder dos elfos era Celembrimbor, um príncipe Noldo que nasceu como parte da linhagem do Feanor, um antigo elfo que tinha alcançado poderes incomparáveis como artífice. E como herança de família, o Celebrimbor também se tornou um artesão extremamente habilidoso, chegando ao ponto dele se tornar “o Senhor de Eregion e o maior dos seus artífices”. Porém, toda essa exibição de poder acabou chamando a atenção do Sauron, que estava buscando formas de expandir suas influências. O Sauron foi esperto porque ele não buscou essa dominação através da violência mas sim através da ambição. Como o Sauron era um Maia, um ser naturalmente poderoso, ele conseguia mudar a sua forma física, o que permitiu que ele assumisse uma aparência mais bela, que seria cativante para quem ele quisesse controlar. Então seguindo esse plano, o Sauron foi para Eregion “envergando a forma mais bela que pôde inventar”, se apresentando como Annatar (O Senhor dos Presentes). Como os artífices de Eregion buscavam sempre aprimorar suas artes, para que pudessem fazer criações cada vez melhores que deixariam o “mundo ainda mais belo”, assim como no mito de Prometeu, que roubou a chama do conhecimento dos deuses para dar ao homem, o Sauron instigou justamente essa ambição dos Noldor, oferecendo conhecimento para a evolução deles, se oferecendo especificamente como um ajudante para o ideal dos Elfos de enriquecer a Terra-média, para o “bem” dela: “percebo que amais esta Terra-média como eu amo. Não é então nossa tarefa labutar juntos para o seu enriquecimento (…)”.
Então o Sauron começou a manipular os Elfos porque ele explorou uma ambição que já existia no coração deles, que era a vontade de aprimorar a Terra-média. Nessa época, os Elfos realmente aprenderam muito com o Annatar porque ele realmente tinha conhecimentos muito extensos. E com essa aliança, é dito que os artífices de Ost-in-Edhil, em Eregion, ultrapassaram tudo o que tinham criado antes, de tão grande que foi a evolução deles, até que essa grande superação dos Elfos encorajou eles a criarem novos artefatos. E foi essa decisão que mudou os rumos das Terra-média.
Os ferreiros de Eregion fizeram vários anéis-élficos como um treino para as habilidades deles. Mas esses primeiros anéis eram “os menores”, como artefatos menos poderosos que foram só ensaios para os Elfos. Até que com a ajuda do Sauron, a irmandade dos joalheiros finalmente chegou no seu auge, forjando 16 Grandes Anéis, os Anéis de Poder. Os Anéis foram criados pelos Elfos com o objetivo da preservação, e por isso eles preservavam o próprio estado dos seus usuários, como aconteceu com os humanos que usaram esses Anéis e esticaram suas vidas. Mas por outro lado, os Anéis também aumentavam os poderes de quem os usasse, o que é uma fraqueza corruptível, como aconteceu com os Nazgul, que caíram para as sombras. E além disso, como o Sauron tinha guiado a construção dos Anéis, eles também tiveram poderes derivados dele próprio, como o poder de alterar o estado de elementos do mundo visível e invisível, como acontece naquelas cenas do Frodo em que ele veste o Um Anel. Como os elfos perceberam a malícia do Sauron assim que colocaram os anéis, esses 16 Grandes Anéis seriam distribuídos, como veremos a seguir, entre outras espécies: com 7 sendo dados para os Anões e 9 para os Homens (esses NOVE para os homens tem outro significado oculto e vou relacionar em outra postagem).
E com cada grupo tendo efeitos bem diferentes por consequência deles. Como os Anões eram naturalmente resistentes, eles não foram completamente dominados pela influência das sombras. Mas no caso dos Homens, se deixaram levar pela influência do Sauron e se tornaram Espectros. Pouco depois dessa aliança entre eles, um outro grupo de Anéis bem diferente também foi fabricado lá em Eregion, já que Celebrimbor, com a experiência que ele tinha ganhado com o Annatar, criou sozinho três Anéis de Poder. E esses que possuíam o maior poder entre os outros anéis dos Elfos, que além do poder que tinham, o que também era único nesses Anéis era a forma como eles não eram naturalmente controlados pelo Sauron, porque eles foram forjados só pelo Celebrimbor. E por isso, esses 3 Anéis ficaram preservados, por mais que o poder deles ainda fosse submetido ao Um Anel. Depois disso, o Sauron continuou a desenvolver seu plano de dominação nas terras de Mordor. E para conquistar esse objetivo, foi imprescindível criar em segredo o Um Anel Governante, que era capaz de controlar todos os outros Anéis do Poder. O Sauron guiou a construção dos 16 Anéis dos Homens e dos Anões s, o que fez com ele tivesse uma influência natural sobre eles. E no caso dos 3 anéis élficos, a técnica para a criação deles ainda partiu dos ensinamentos do Sauron, por mais que parcialmente, através do Celebrimbor. E como o Sauron transmitiu parte da sua própria força para o Anel Governante, ele conseguia controlar os outros Anéis através dessa associação entre eles.
Para impedir o avanço do mal, os ferreiros protegeram os Anéis do Sauron, o que resultou numa grande guerra entre ele e os Elfos. Muitos anos depois, os 3 anéis élficos puderam ser usados pelo Gandalf, a Galadriel e o Elrond, porque lá no passado, os Elfos foram bem rápidos para proteger-los. Mas, em Eregion, os Elfos não tiveram tanto sucesso, porque o Sauron invadiu o reino com suas forças e devastou a região para tomar os tesouros que ele tanto queria. O Celebrimbor investiu diretamente contra o Sauron, lutando pessoalmente contra ele, onde acabou sendo capturado, torturado e morto. E depois da derrota de Eregion, o Sauron finalmente conseguiu tomar os 16 Anéis do Poder restantes, que seriam distribuídos para outros povos, como já vimos, na quantidade de 7 para os Anões e 9 para os Homens. Dessa época em diante, a guerra nunca mais cessou entre Sauron e os Elfos. E Eregion foi devastada; Celebrimbor, assassinado; e as portas da Moria, fechadas”. E assim, com a forja dos Anéis de Poder, acabou o período da grande amizade entre os Elfos e os Anões. Com a ganância do Sauron dominando o que vinha sendo tão rico. Então essa foi a saga da criação dos Anéis de Poder.
Quando o Sauron influenciou os Noldor, a ambição que ele explorou nos Elfos era a vontade deles de enriquecer a Terra-média para embelezar o mundo. Então o ponto fraco que abriu espaço para a deturpação dos Elfos não foi uma ganância maligna por parte dos deles, mas sim um DESEJO DE PODER que era visto como nobre, como legítimo. E essa manipulação do Sauron é muito expressiva pela forma como a busca por poder continua a ser desenvolvida na história da Terra-média. Por exemplo, na Terceira Era, o dilema da ambição volta a ser explorado quando o Gandalf recusa o Anel oferecido pelo Frodo, numa cena que é muito expressiva. O Gandalf diz que o caminho do Anel para o coração dele seria pelo “desejo de força para fazer o bem”, que é uma frase que sinaliza como o poder oferece um risco inescapável porque até o desejo de força motivado pelo bem é vulnerável para a corrupção, a tentação sobre o desejo por poder.