TECNOCRACIA E POLÍTICA – Raymundo Faoro

(…) A tecnocracia dos tecnocratas públicos e particulares cede lugar, pela estatização, ao setor oficial, diante das exigências sociais impostas pela eficiência de sua atuação. O Estado adquire fim próprio e novo, elevando à máxima potencialização os meios técnicos disponíveis. Os meios determinam os fins, de modo que as possibilidades técnicas constrangem e forçam sua aplicação.

(…) O resultado da avalancha incontrastável seria afastar da cena o político. Mas, para que se concretize essa proposição, arreda-se do palco a democracia, no que ela significa de participação popular, nome moderno da velha soberania popular. O dogma de que todo o poder emana do povo seria uma dupla falácia. Falácia se analisado no campo da realidade, onde, em lugar do povo, operam os partidos, os grupos de pressão, as classes, todos armados para o engano de um espetáculo periódico, as eleições. Falácia ainda e particularmente na ordem política nova, visto que
os destinos do país se reduzem a esquemas técnicos, inacessíveis a todos os cidadãos, só compreensíveis para uma minoria muito limitada. As medidas técnicas e as decisões políticas teriam a mesma índole, não passando o propósito de separá-las de revivescências irracionais. A planificação seria impossível, se dependente da anárquica, descoordenada e tumultuada presença dos políticos, agarrados à lisonja de seus eleitores. O problema da legitimidade, esvaziada de ilusões teóricas e ideológicas, não seria mais que a busca do consenso, que se obterá pela apropriação de meios técnicos, manipuláveis, criadores da consciência e da censura.

(…) “O Estado técnico, alheio ao combate à democracia, sem que seja anti democrático retira da democracia sua substância. As decisões tecnocientíficas não se coadunam com as manifestações da vontade popular, sujeitas a juízos que as tornam irracionais, a caprichos extraviados, ao arbítrio inaceitável num mundo pré-ordenado. O quadro da utopia técnica despolitiza a política, atingindo a própria vontade popular, adulterando-a pelas técnicas de manipulação dos meios de comunicação. Ainda aqui, é a técnica que ocupa o lugar da política, substituindo o estadista pela sua imagem, fabricada nos laboratórios e nas agências, para uso da maior eficiência dos meios. Por outro lado, as ideologias se despojam de sua constelação de valores coletivos, radicada na vontade e nas decisões dos governados, para se converterem em justificações, explicações a posteriori, manipulação de motivos dos fatos que devem acontecer, premidos pelas circunstâncias. Isto porque os argumentos técnicos se expressam sem conotação ideológica, eliminando as bases de decisão que a constituem. As velhas formas de poder político não passariam de casulos vazios. Ao anúncio fúnebre da morte da democracia, monotonamente repetido em todos os tempos, segue-se o cortejo das viúvas sem lágrimas: a política e a ideologia.

(…) No fundo, ao pretender que o poder não se equaciona mais de homem para homem, não superou a servidão, como prometera, senão que negou a responsabilidade e converteu a pessoa numa equação abstratamente considerada. O poder, ao se tornar impessoal, perdeu a noção do componente mais ativo do Estado, o seu conteúdo normativo. Ora, a ausência de normas de conduta ditadas pelo consenso, substituídas por medidas impessoais, ajustando-se à não-participação, gera uma secção na sociedade. Os homens que não compreendem e não podem debater as proposições técnicas, na maioria, entregam-se a valores próprios, que se divorciam da estrutura dominante, criando, à margem desta, a paranóia social. A sociedade anônima assim se definiria, nos planos de um sociólogo americano: “um sociedade caracterizada pelo emprego de avançada tecnologia requer a população sempre mais disciplinada, a qual, na realidade, mostra capacidade cada vez mais reduzida para cumprir tal disciplina”. A irracionalidade social seria o efeito normal do sistema.

O termo final da suposta jornada racional, do caminho tecnocrático, seria um palácio vazio, rondado por fantasmas, palácio perdido no mar do irracionalismo e ameaçado pelos criadores de ídolos. No quadro exteriormente harmônico e interiormente delirante da tecnocracia nada existe de real, senão uma ideologia colorida de traços utópicos, ideologia que justifica valores postos em dúvida, que confere à racionalidade um valor em si. Ideologia, ainda, que mascara a luta pelo poder, o velho poder de sempre. Demoníaco nas suas dissimulações”.

Pra evitar mal entendidos, o personagem da é Humpty Dumpty.

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