O atual Dalai Lama, o XIV, era muito amigo do chileno Miguel Serrano, importante expoente do chamado nazismo esotérico. Serrano inspirou-se em Savitri Devi (1905 – 1982), que alcançou ampla influência entre círculos neonazistas através do desenvolvimento de uma forma religiosa de nazismo que assimilou muitas noções do hinduísmo e glorificou a raça ariana e Adolf Hitler. Ela ligou essas ideias à noção hindu do avatar, que encarna a descida periódica à terra da divindade, tipicamente Vishnu.
As ideias de Savitri sobre as origens dos arianos foram extraídas dos livros de Bal Gangadhar Tilak (1856 – 1920), o primeiro líder popular do Movimento de Independência da Índia. As autoridades coloniais britânicas o chamaram ironicamente de “pai da agitação indiana”. Ele também ajudou a fundar a All India Home Rule League em 1916-18, com Muhammad Ali Jinnah e Annie Besant.
Após a derrota do Terceiro Reich, Serrano continuou a acreditar que Hitler havia escapado das ruínas de Berlim e encontrado um refúgio na Antártica. A ideia foi amplamente divulgada na imprensa latino-americana durante o verão de 1945. Em The Golden Thread: Esoteric Hitlerism, Serrano afirmou que Hitler estava em Shambhala, anteriormente no Pólo Norte e no Tibete, mas que havia sido realocado para uma base na Antártica em Nova Suábia. Lá, Hitler estava em contato com os deuses hiperbóreos e algum dia emergiria com uma frota de OVNIs para liderar as forças da luz sobre as forças das trevas em uma última batalha e inaugurar um Quarto Reich.
As afirmações de Serrano são um reflexo da alegação de contato nazista com a Sociedade do Dragão Verde. O autor de conspirações alemão Jan Udo Holey, que escolheu como seu nom de plume “van Helsing”, depois de ler o Drácula de Bram Stoker, oferece detalhes do mito. Em Sociedades Secretas e seu Poder (1993), Helsing afirma que os monges tibetanos trabalharam no estabelecimento do Terceiro Reich com Cavaleiros Templários que foram organizados na mais alta loja do “sol negro”, que supostamente continuou a manter uma base subterrânea no Himalaia. Diz-se que o governante do reino subterrâneo é “Rigdenjyepo”, com seu representante na Terra sendo o Dalai Lama.
Durante seus cargos de embaixador em Viena e posteriormente na Suíça, antes de ser demitido do serviço diplomático chileno na década de 1970 pelo presidente Salvador Allende, Serrano cultivou laços de amizade com Arnold Toynbee, Arthur Koestler, Aldous Huxley e importantes ex-nazistas e fascistas internacionais, como Wilhelm Landig, que foi o líder do Landig Group, também conhecido como Vienna Lodge, formado em 1950 para reviver a mitologia ariana de Thule. Descrito em Göten gegen Thule, no que ele chama de Ponto 103 é uma base secreta que foi estabelecida pela elite SS no Canadá Ártico, com um grande complexo subterrâneo equipado com tecnologia avançada, incluindo discos voadores. Muitos delegados estrangeiros participam de uma grande conferência realizada no salão de reuniões da base, decorado com símbolos astrológicos e um enorme ícone de Mithras matando o touro. Os delegados que foram levados para a base em discos voadores incluem um lama tibetano, oficiais japoneses, chineses e americanos, indianos, árabes, persas, um etíope, um oficial brasileiro, um venezuelano, um siamês e um índio mexicano.
Serrano também se vangloria de ser “bom amigo” do Dalai Lama XIV, e explica a curiosa relação da seguinte forma:
-“Também conheci o Dalai Lama no momento em que ele escapou do Tibete durante a invasão comunista chinesa. Ele era muito jovem, tinha 25 anos. Fui encontrá-lo no Himalaia. Ele nunca se esquece disso. E quando nos encontramos novamente durante o funeral de Indira Gandhi em Delhi. Ele me convidou para ir para Dharmasala, onde ele mora agora. Tivemos uma conversa muito interessante. É bom saber que antes do budismo ser introduzido no Tibete, os tibetanos eram uma raça guerreira e sua religião, a Bo, usava também a mesma suástica do hitlerismo. Até hoje, os serviços de inteligência da Inglaterra e dos Estados Unidos não conseguiram descobrir as verdadeiras ligações misteriosas que existiam entre o Tibete e a Alemanha hitlerista”.
Por mais de 25 anos, muitas centenas de milhares foram “iniciados” pelo Dalai Lama XIV através dos mistérios do Kalachakra Tantra e Shambhala, que se tornaram pilares centrais na mitologia dos neo-religiosos Nazistas. Serrano incorporou o décimo quarto Dalai Lama na formulação de seus mitos esotéricos em torno de Hitler. Sua “habilidade”, disse ele sobre o décimo quarto Dalai Lama, está “intimamente ligada à da Alemanha de Hitler… com base em conexões ainda não descobertas”. O Dalai Lama nunca se distanciou de Serrano.
