

Estava ontem comentando num grupo de amigos sobre a fusão entre física e gnose no filme interestelar. O clichê de salvação da terra/Gaia nem precisa explicar muito. O buraco negro em outra galáxia pra onde o astronauta vai é como o maktub, do Paulo Coelho, ou seja, é a oposição da ideia de livre arbítrio. É como dizer “está escrito”, no sentido de pré-determinação. É onde todas as informações estão escritas e guardadas, num buraco negro após um horizonte de singularidade. É uma ideia gnóstica, como a ideia de Jung do inconsciente coletivo, ou registros akashicos.
Os filmes de Christopher Nolan são carregados de gnosticismo. O Cavaleiro das trevas (que teve Heath Ledger como icônico Coringa) tem um ritual de iniciação no Himalaia. A Origem, com Leonardo DiCaprio exibe um drama de matrix dentro de matrix do inconsciente. Transcendence, onde o protagonista transfere sua consciência para um computador, bem ao estilo da noosfera de Teilhard de Chardin. Em O Grande Truque (The Prestige, 2006), Christopher Nolan rende homenagem ao misterioso e controvertido cientista Nikola Tesla com uma performance do gnóstico pop David Bowie – Tesla era estudioso da teosofia, tendo aproximado-se desta através dos ensinamentos de Swami Vivenkanada, na época (1891) em visita aos EUA. Tesla passou a descrever os fenômenos que manipulava em termos sânscritos como Akasha, Prana e o conceito de “Éter Luminífero” para descrever a fonte, existência e construção da matéria… Bom, mas vamos ao que interessa.
Sobre Inteerestelar, primeiro vou logo acrescentando que, sobre a pré-determinação que estou citando, não é do conceito tomista pois Deus não está inserido na equação. Produzir, o homem, atos meritórios no decorrer da sua vida – estes são gratuitos dons de Deus; não desencadeiam o amor divino, mas, ao contrário, são desencadeados pelo liberal beneplácito do Senhor. Por certo não há predestinação para o mal ou o inferno, isso sim é uma ideia gnóstica, mas especialmente a ideia que Caim é filho da Serpente e sua descendência está predestinada ao inferno, ideia parecida ao pré determinação dos condenados presente no islamismo. O que falta, no filme, é conciliar a primazia da ação de Deus no homem com a liberdade de arbítrio da criatura.
Também no filme interestelar existem outros simbolismos gnósticos. O nome do buraco negro na galáxia distante é Gargantua, da obra Gargântua e Pantagruel de François Rabelais onde o gigante Gargântua nasce pedindo cerveja, com uma ereção de várias jardas de comprimento, fato que proporciona muita diversão às suas aias em capítulos futuros. Depois de uma educação indiferente em casa, ele é enviado para Paris, onde as multidões o irritam tanto que ele afoga milhares de civis numa enchente de urina (os sobreviventes riem tanto que a cidade é renomeada “Par Ris”). Ele rouba os sinos de Santo Antônio, mas os devolve depois de um sofista fazer apelos ridiculamente egocêntricos para o seu regresso. Enquanto ele estuda diligentemente em Paris, os padeiros do vizinho Sr. Picrochole insultam os viticultores de Grandgousier, e consequentemente são atacados por eles. Um ataque maciço de retaliação contra as terras de Grandgousier finalmente é parado em Sevilha pelo impiedoso Frei João. Grandgousier clama pela paz, mas Picrochole rechaça suas tentativas. Gargântua e o Frei João reúnem as tropas e (depois de Gargantua quase engolir seis peregrinos que haviam caído acidentalmente em sua salada) vencem uma grande batalha, fazem Picrochole recuar para a sua cidade e o derrubam. Como recompensa, o Frei João recebe fundos para estabelecer a “anti-igreja” conhecida como a Abadia de Thelema, Abadia que inspirou o ocultista Aleister Crowley.
O humor e violência grosseiros e obscenos sobre a Abadia de Thélème, construída pelo gigante Gargântua, onde a única regra é “fay çe que vouldras” (“Fais ce que tu veux”, ou “Faça o que tu queres”), que influenciou o movimento Thelema de Aleister Crowley e a cultura pop brasileira. A palavra “thelema” é rara no grego clássico, onde “significa a vontade apetitiva: desejo, às vezes até sexual” mas é frequente nas traduções gregas originais da Bíblia. Os escritos cristãos primitivos ocasionalmente usam a palavra para se referir à vontade humana e, embora geralmente se refira à vontade de Deus, também pode se referir à vontade do oponente de Deus, o Diabo. A base da visão niilista de Rabelais era que “é de acordo com a natureza do homem ansiar pelas coisas proibidas e desejar o que nos é negado”.
Outra reflexão é sobre o tempo e a eternidade, mais especificamente o domínio do tempo, Cronos/Saturno – os aneis em Gargântua ligam à esse símbolo, assim como a entrada, o buraco de minhoca para a galáxia onde Gargântua está localizado fica na órbita de Saturno. No filme fica claro o controle do tempo pelo homem, onde ele mesmo, no futuro, deixa a dica pra ele no passado, como se homem se tornasse “deus” e senhor da eternidade, assim como senhor do próprio destino (pra entender isso precisa compreender que, segundo Cooper, os próprios humanos, em algum momento no futuro, construíram a realidade dentro de Gargântua, embora eu creia que não sejam humanos, mais provavelmente sejam espíritos em prisão novamente oferecendo conhecimentos ocultos ao homem) cheia de cubos e hexágonos, que também simbolizam saturno. O diálogo entre Cooper e o Dr. Mann também remete ao diálogo de Bruce Waine em Batman, O Cavaleiro das Trevas, onde o mestre ensina ao iniciado o poder do medo da morte, morte esta que a também está relacionada ao símbolo de Saturno com sua foice.
Algumas especulações simbolicas:
– o poema de Dylan Thomas provavelmente remete à deusa Nut/Nuit, outra referência à Thelema.
– o nome do protagonista Cooper está ligado à Copper/cobre, metal que na alquimia remete à Vênus, sendo o protagonista um caído de Venus, pois a primeira cena já mostra a primeira queda (de várias) dele.
De símbolos relacionados aos números contidos no filme nem vou comentar nessa postagem pois passaria do limite de caracteres facilmente.
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IMAGEM 1 – o gigante Gargântua prestes a devorar um humano, ilustração de Gustave Doré, 1873.
IMAGEM 2 – Gargântua, o buraco negro de Interestelar.