
…”Gumb não é um assassino qualquer. Ele trabalha com a coerência estética de quem tem algo mais em vista: ele arremata os crimes com um halo de símbolos que lhes dá a regularidade e a perfeição de um rito mágico. Se ele quisesse a pele das vítimas apenas como matéria-prima, por que haveria de inserir em suas gargantas um símbolo? E por que esse símbolo representava para ele, em suas próprias palavras, algo de ‘belo e poderoso’? Ao aspecto meramente físico e utilitário da operação criminosa, ele acrescentava um suporte simbólico, destinado, evidentemente, a convocar o auxílio das potências tenebrosas para o sucesso da mutação desejada. Quem lhe ensinara estas coisas? Quem fizera do ‘jovem assassino em mutação’ um misto de feiticeiro e carrasco? Quem o iniciara na arte tenebrosa? E por que há em sua casa uma bandeira nazista, que evoca, sob a figura do costureiro de peles humanas, a dos carrascos que, também movidos por sinistros motivos ‘esotéricos’, tiravam a pele dos prisioneiros judeus e com elas mandavam costurar artísticas cúpulas de abajur? Os crimes de Gumb afastam-se, assim, da motivação psicológica mais óbvia e utilitária, para adquirir uma reverberação simbólica tenebrosa, que, nas palavras de advertência do próprio Dr. Lecter, ocultam algo de ‘muito mais inquietante’.”