
Dias atrás li o relato de um amigo – que já o apagou e considero isso bom sinal – da fragilidade dos relacionamentos perante o oceano de correntes de análises clínicas psicológicas e as influências que trazem para os relacionamentos. Quando fui numa terapia de casal, após indicação de uma ex-amiga feminista da minha esposa da época de faculdade, após a primeira entrevista, de fronte ao busto de Sartre numa sala anexa ao consultório, o psicólogo começou a conversar:
– sua esposa relatou que o senhor gostava de estudar filosofia (e apontando pra coleção do existencialista perguntou-me, com tom de convite) o senhor conhece Sartre?
– sim, disse-lhe e apressadamente procurei a carteira pra pagar a consulta e disse que precisava voltar pra casa pois passara da hora da babá que cuidava do meu filho ir pra casa.
No caminho de casa contei pra minha esposa sobre o relacionamento de Sartre com Simone de Beauvoir (link de trecho do livro de Paulo Francis no primeiro comentário) e expliquei a proposta do analista. Nunca mais voltamos.
É assim que surge o convite ao “Fais ce que tu veux”, ou “Faça o que tu queres” inspirado no livro em que Rabelais escreve sobre a Abadia de Thélème, construída pelo gigante Gargântua, onde a única regra é “fay çe que vouldras”.
Mas como o Hedonismo tornou-se princípio na análise clínica e nos consultórios de psicologia? Primeiro é interessante entender o simbolismo dos mitos gregos e saber que Hedone ou Volúpia é uma filha, uma daemon, gerada do relacionamento entre Eros (o amor thelema) e Psique (representa a alma e é filha de rei que de humana sofre uma metamorfose, transmuta para deusa e, por isso, muitas vezes é representada com asas de borboleta).
Para Marcuse é na essência do homem que se encontra o potencial de libertação. Essa essência tem sua base na natureza, pois é Eros, pulsão de vida. Com isso, se contrapõe à antiga essência do homem, que é Logos. Partindo de Freud, Marcuse proclama a necessidade um novo indivíduo, que tem como seu objetivo a fruição e receptividade do prazer, sem culpa, sem constrangimento e sem trabalho árduo.
A função de Eros é combinar as substâncias vivas em unidades cada vez maiores de vida, é o impulso que preserva e enriquece a vida mediante o domínio da natureza. Para Marcuse, portanto, a razão deve se transformar em Eros, o Logos deve orientar o princípio de prazer. Já não deverá ser mais um Logos imperativo, dominador, repressivo, – na cultura Ocidental, o Logos representa Jesus; mas um Logos que seja contemplação, fruição e receptividade do prazer, ou seja, a substituição de Cristo.
Essa ideia é antiga, faz parte do imaginário brasileiro através de alguns thelemitas, como o “mago” Paulo Coelho e seu parceiro Raul Seitas, digo, Seixas.
O sucessor de Aleister Crowley na O.T.O. durante os primeiros anos após sua morte (por overdose) foi o compositor, cineasta e judoca brasileiro Marcelo Ramos Motta. Em 12 de novembro de 1975, a Philips Records lançou o quarto álbum de estúdio do cantor brasileiro Raul Seixas. Seu novo álbum é chamado de Novo Æon. Contém quatro canções compostas em parceria com Marcelo Ramos Motta: Tente Outra Vez, A Maçã, Peixuxa o Amigo dos Peixes e Novo Æon. O álbum conta ainda com contribuições do escritor Paulo Coelho. Seixas sob instrução de Motta, Coelho sob instrução de Euclydes Lacerda de Almeida.
Link da música A maçã, de Marcelo Motta com interpretação de Ney Matogrosso (com vestes que lembram uma serpente) no segundo comentário.
http://scriptorium-ix.blogspot.com/2015/03/paulo-francis-sobre-simone-de-beauvoir.html?m=1